Tia Vanica e Doralice, mãe e filha, tia e prima de minha avó materna, moravam em sítio na mineira Uberabinha, local sem qualquer vestígio de saneamento básico. Tia Vanica tinha defeito físico na mão esquerda, sempre escondida dentro de espécie de embornal, repleto de bugigangas: resto de bolo enrolado em guardanapo, cópias de rezas (bravas), raminho de alecrim e arruda para benzeções de emergência, tocos de velas, santinho, receitas, cartas, dinheiro, fotos, frutas, sementes - num claro e evidente desafio aos conceitos de continente e conteúdo. Na família, a expressão ‘embornal da tia Vanica’ ainda significa bolsa entulhada. Curiosidade e impiedade infantil não raro se manifestavam: tentávamos lhe puxar o disfarce. Ela desencapava os dedos retorcidos e ameaçava nos atacar. Quando o progresso chegou à periferia elas puderam realizar o luxo de ter água corrente, esgoto e sanitário. Adeus fossa no quintal. Dizem que Doralice, já moça, entusiasmadíssima com a novidade de eliminar os dejetos com o simples gesto de puxar a cordinha, postou-se à porta do novo cômodo e avisou os outros familiares: ‘Podem c*g*r à vontade, mas quem dá a descarga sou eu!” Folclore familiar? Nunca soube. Em toda lenda há fundo de verdade e, tirando raríssimas exceções, toda família tem seus doidos e doidices, senão não haveria a menor graça em viver.
(Foto em Uberabinha/ Uberlândia, 3 de julho de 1932.)
(Lúcia H. M. Brigagão)