08 de julho de 2026

Lata de banha - 6ª parte


| Tempo de leitura: 5 min

– Bom-dia, seu moço! saudou Gaudêncio.

– Bom-dia, bom-dia, meu rapaz! Muito obrigado por ter vindo me buscar. Me ajuda aqui com meus apetrechos e vamos ligeiro que eu estou necessitado de me aliviar, me refrescar com água da bilha e conhecer a freguesia. Qual é mesmo a sua graça?

– Gaudêncio, ao seu dispor; e o senhor é o seu Álvaro, não é mesmo?

– Isto mesmo, Álvaro Cortez. É a primeira vez que apeio nestas bandas. Vim por indicação do seu Gonçalves, homem que muito prezo. Devo ir para a casa do senhor Doca, não é? E acho bom irmos ligeiro, pois parece que vem chuva por aí.

Enquanto se davam essas preliminares, Gaudêncio pegava as malas do chão e as ajeitava na charrete, sem a ajuda de Álvaro. Ao contrário, este já foi se aprumando na boleia estreita, com movimentos bruscos das mãos para espantar mosquitinhos miúdos e se abanar. Mormaço.

Gaudêncio não demonstrou seu descontentamento com a atitude. E nem poderia, estava a serviço de dois patrões. Bico calado e toca pra frente.

Refaz o caminho de volta. Nuvens espessas encobrem o sol. Com o canto dos olhos, Gaudêncio dá uma espiada no caixeiro-viajante. Perfumado o moço, unhas polidas com esmalte incolor, sapatos pretos luzidios, cabelo abrilhantinado, um discretíssimo buço sobre o lábio superior, calça e camisa de fino corte, jeito jovial, rosto corado que nem de moça de cidade... Ô, gente, esse um não era para o mato; parecia que estava indo ao encontro de senhoras regado a ponche refrescante à tardezinha, entre crochês e bordados.


Foi este o primeiro erro de Gaudêncio: enxergar rosa num cravo enrustido.

E segue o caminho: moitas de assa-peixe, bambuzal, sabiás, tarari, tarará...

Nuvens negras vão se acumulando. Prenúncio de chuva braba. Súbito, um clarão corta o céu. Silêncio expectante. Três segundos. Um estrondo de trovão ecoa nos ares. Álvaro, o moço bonito se encolhe, cruza as mãos, leva-as ao peito e exclama:

– Santa Bárbara, São Jerônimo! Não dá para esse pangaré ir mais depressa?

Gaudêncio fica calado.

Chibateou duas vezes o animal, com um tiquinho só de raiva, sem saber por quê.

A chuva teimava em não cair. Parecia esperar que eles chegassem.

– E chegam. Gaudêncio para embaixo da paineira. Álvaro desce serelepe e se dirige a Doca, que o estava esperando na varanda da frente. O retireiro, feito mula de carga, mas em silêncio respeitoso, retira as duas malas marrons e as leva ao quarto reservado para o vendedor ambulante da cidade, o moço cheio de dedos e unhas esmaltadas.

Desatrela e solta o animal no pasto.

Guarda os apetrechos no paiol.

Com o prenúncio da chuva, melhor ir para casa.

Das Dores embalava o filhinho enquanto sussurrava uma prece confusa diante de ramos ressequidos postos atrás da porta.

Gaudêncio molhou o rosto mas não o enxugou; queria sentir o frescor do início da tarde.

Escancarou a janela de frente para o pasto.

Não havia o menor movimento nas folhagens. Mormaço irrespirável invadiu seu quarto, não em forma de vento, mas compacto, íntegro, pesado, invisível, intangível. Apenas uma espécie de ar imoto quente e úmido, resultante de um abafadiço calor.

Ninguém mais à vista; as janelas do casarão de Doca se fechando, temerosas. O céu trazia de detrás da montanha mais próxima um marrom anunciador de temporais.

Quietude, imobilidade, silêncio, calor abrasante.

Um novo e assustador clarão rasga o céu. Explode no espaço comprimido entre nuvens outro ribombar de trovão ensurdecedor. Num solavanco único o ar se desloca, atirando, de pancada, por todos os lados, as miudezas do chão: folhas, gravetos, sujeiras miúdas. Mais um disparo dos céus e os ramos das árvores se dobram vertiginosamente.

Cai a chuva anunciada; tamanha é sua violência que agora algumas árvores jovens se partem vencidas. A cerca do chiqueiro cede e aos poucos enxurradas, desgovernadas, sem rumo se unem, transformando o quadrante de secar sementes numa lagoa de inquieta superfície.

Talvez a tempestade tenha durado uns dez minutos, seguida de chuva menos forte, mas ininterrupta. Talvez fossem duas horas da tarde. Talvez... A certeza mesmo ficava por conta de Gaudêncio. Doca já não era tão capaz sem ele. Doca precisava dele. A família precisava dele. Os colonos aguardavam suas orientações. Numa formidável inversão dialética, Doca, o senhor, passa a necessitar de Gaudêncio, o retireiro. Mudam-se sutilmente os papéis. Gaudêncio agora tem consciência exata de sua função e importância na ordem natural do cotidiano na fazenda.

Ordem.

A tempestade viera como um anúncio decisivo, ordenando o pensamento do retireiro: Gaudêncio atinava o autoconhecimento, sua força interior, sua capacidade de gerir a própria vida e de bem cuidar dos que dele dependiam. A tempestade, a força dos elementos naturais demonstrava isto: o esplendor e soberba da paineira curvando-se ante a força da natureza. Era, sem dúvida, uma mudança decisiva de página.

Das Dores ainda rezava , mas Deus não salvava. A lagoa do jequitibá transbordara e suas águas ameaçavam perigosamente currais e plantações. Telhados de construções velhas voavam. Nem santa Bárbara intervinha, nem são Jerônimo. Ao contrário, a chuva tornara a engrossar e caía pesada sobre aquele povinho miúdo do local, desprotegido, espalhando sal grosso no chão e ardendo ramos secos por toda a casa.

O meninozinho havia se aquietado no berço.

Gaudêncio não precisava de rezas... Ao menos agora. Queria carne: a carne de das Dores. Ela cedeu enquanto a chuvarada se dispersava e ia dando lugar e vez ao frescor perfumado do mato e à calma rogada em promessas.

Noite. Sem lua, mas plena de estrelas que cintilavam num céu aberto de outubro.

Grilos.

Coaxar de sapos de lagoa.

Natureza úmida e fresca.

Ruídos repousantes da noite.

Um trovão muito, muito distante.

Pelo ar limpo ouve-se o delicado tilintar de um sininho pendurado ao pescoço de algum animal insone.

Findas as ameaças.

Todos dormem na fazenda do Gonçalves.