09 de julho de 2026

Poema-Nulo: Escrito no Muro - Para Salles Dounner, pintor e poeta


| Tempo de leitura: 2 min

Prólogo: Neguinho me disse - Se liga neguinho, acorda!
Não há moradores de rua, estes corpos excluídos e esquecidos,
São apenas hóspedes de um anfitrião-nenhum dum castelo inacessível.
Inacessível como o é para todos nós. Eles negarão, eu neguinho.

Escrevo estas palavras
À beira do precipício
Mas não serão escravas
Do medo do extermínio

Escrevo estas palavras
À beira do precipício
Eis aqui o início
Do vôo destas asas

Escrevo estes versos
À beira do abismo
Escutando dos submersos
A revolta contra o egoísmo

Inscrevo este poema no muro
Na minha cara e na sua cara
Não tem nenhuma rima rara
É merda expelida do furo

Escavo este poema na terra
Em busca de um povo
Que em si encerra
Uma nova fé dentro do ovo

Traço de poesia o espaço
Me equilibro todo bamba
Sobre a corda bamba
Se apagarem refaço

Não escrevo à pena
Escrevo com prego
O estilo que emprego
Não faz cena

Entrega no ato
O contato
Pele à pele
Do desejo que impele

Deixo aqui esta marca
Que não é de marca
Pode ser parca
Mas arca

Com o risco
De não pagar o fisco
De ser de tom arisco
Não recuso arrisco

É com prego e martelada
É com uma fome desgraçada
Que escrevo este poema desdentado
Este poema descarado

Este poema rotundo
Esfera de miséria
Do grito mais profundo
Da voz mais ébria

A miséria não tem nome
A miséria esférica
Que envolve tudo em lama e fome
A nudez cadavérica

Exposta nas ruas
A miséria crescendo lodo
Revestindo as crianças nuas
Olhe a si olhe ao lado

Este lodo nos investe
De uma escandalosa indigência
Impregnada nas axilas 
E no sêmen que toma o ventre de peste

Escrevo diante dos cães sem residência
De gente das quais não se encontra pa-rente delas
Que não conhece datas que não tem o tempo marcado
Gente deste mundo criado
No qual sobrevivem

Escrevo diante os analfabetos
Diante os índios e os que se escondem
Por trás das grades confinados
Diante os fatos e os fetos
Rejeitados e descartados
Diante os desterrados
Os humilhados
E os esquecidos

Diante os que se esvaem de desejo ardente
Dos que se negam diante à caducidade do mundo trabalhar
Dos loucos dos que se perderam em amar
Diante o sol escaldante diante o presente

É com este prego enferrujado
Que minha mão traspassada
Grava este poema indisciplinado
Diante esta fachada

Contra à qual me choquei
E me gastei até a medula
Aqui neste beco cantei
Minha art-nula.