20 de março de 2026

Álbum de família


| Tempo de leitura: 4 min

O folclore familiar me desfavorece. Diz que eu virava pimenta ardida quando ofendida; diz que eu não parava quieta: culpa do tal bicho carpinteiro, posso imaginar onde; que eu emendava os por quês, era insaciável no quesito curiosidade

Oposto da irmã meiga, doce, tranquila e linda. Em compensação sempre me senti amada. Se reclamo, é porque trouxe essa atávica tipicidade de algum ancestral. A terapia que, descoberta, nunca abandonei, me fascinou porque dimensionou minha normalidade dentro do meu próprio padrão, responsável por tanta coisa que me acontece e aconteceu que atribuo às minhas características. Aprendi a dor e a delícia de ser o que e como sou... Diz ainda que eu só sossegava quando vovó materna Ritinha se sentava à poltrona, me punha no colo, baú de fotos numa cadeira, caixa vazia em outra.

Aleatoriamente ia pegando foto por foto de gente que eu nunca vi, nunca veria, de conhecidos, parentes próximos e distantes e contava histórias de cada ser, transformando-os em personagens que entraram em minha vida, cada um influenciando minha personalidade a seu modo, em importância, desimportância, bons e maus exemplos, edificantes alguns, arrepiantes outros. Na caixa vazia depositava as figurinhas vistas, horas depois as voltava para o baú, que guardava sobre o guarda-roupas. Quando vovó partiu, minha mãe me destinou o baú com as fotos, algumas peças muito antigas de grande valor emocional e pouco valor material e a estante com os livros do Chico Xavier. São meus tesouros.

Recentemente veio convite para ocupar espaço no suplemento literário Nossas Letras, do Comércio da Franca, vago pela desistência da responsável tradicional Atalie Rodrigues Alves Ferreira que por vinte anos nos brindou com suas publicações que eu acompanhava e elogiava, quando tinha oportunidade. Convite honroso. Comentei na ocasião que não me sentia competente para substituí-la, que eu poderia, no máximo, fazer outro trabalho, dentro daquele espaço que passou a se chamar Álbum de Família. Aí peguei o velho baú da vovó, enriquecido com outras fotos que mamãe acrescentou. Há muita história de vidas ali, fiquei assustada. O velho baú me fez lembrar a Arca da Aliança do Indiana Jones: ao abri-lo saíram fantasmas, barulhos, cheiros, lembranças, objetos, coisas, retalhos e rebotalhos reavivados e revigorados. É esse o material que compartilho no meu novo lar literário. Há histórias lindas, horripilantes, edificantes, curiosas, tristes, alegres, engraçadas, absurdas, românticas, plausíveis, implausíveis, deliciosas, apimentadas, incríveis: histórias humanas. Contribuições começaram a chegar. Já tenho outros álbuns de família que divulgarei com o consentimento dos personagens ou doadores.

Faço aqui a explicação que eu devia aos leitores do Nossas Letras e, da mesma forma, o agradecimento à minha antecessora que construiu o espaço, deu-lhe consistência, credibilidade, divulgou fatos e pessoas nos seus relatos sobre a história da cidade e cidadãos. Farei o possível para acrescentar algo ao trabalho dedicado e delicado que ela desempenhou. Às sextas-feiras assinarei esta coluna; aos sábados estarei no suplemento. Vale dizer, passarei o final de semana junto com os leitores que me honram ao me acompanharem, discordando ou concordando com o que digo, quer dizer, com o que escrevo.

SABEDORIA
Três cosas deben apreciarse: la cordialidad, la bondad y el buen humor. Três cosas devem cultivarse: la Verdad, el Ingenio y la Conformidad. Três cosas deben governarse: el Caráter, la Lengua y la Conducta. Três cosas deben imitarse: el Trabajo, la Constancia y la Bondad. Três cosas deben defenderse: el Hogar, La Pátria y los Amigos. (Provérbio chino, recorte de jornal encontrado no baú antigo da família).

AGRADECIMENTO
Meu démodé IPhone, companheiro de par de anos, abandonou-me, esmagado por carro desconhecido que lhe passou por cima, fazendo dele uma paródia da Iracema do Adoniram. Não sobraram meias, nem sapatos, apenas o chip com informações de agenda formada há anos, com valiosos contatos. E não é que o escrivão, sr. Marcos Mercado, que tem uma Brasília azul, conhecidíssimo lá pelos lados do prédio dos Bancários da rua General Carneiro o achou, recolheu, entregou-o para o proprietário de supermercado das imediações que o fez chegar até minhas mãos? Sim, temos bandidos. Sim, temos políticos desonestos. Sim, temos razões para duvidar da probidade e honradez de muitos. De repente, porém, aparece um gesto em cadeia, como esse, que enche o coração da gente de esperança de mudanças. E de gratidão.

FILME
É francês. Circula com três títulos diferentes: no original, Intouchables, The Intouchables, no inglês e no português, que adora antecipar o roteiro, Amigos Improváveis. Com François Cluzet e Omar Sy, direção e realização de Olivier Nakache e Eric Toledano. Tem mais: baseado em história real. Após acidente que o deixa tetraplégico, milionário contrata ex-presidiário para acompanhá-lo, cuidar dele e guiá-lo. Emocionante e engraçado. Entregue-se à história e alterne choro e riso e aprenda mais sobre amizade.

SENSATEZ
A declaração mais sensata que ouvi de um dos candidatos à prefeitura de Franca: ‘Não hora de prometer nada. É hora de terminar o que está começado, para podermos recomeçar com novos projetos que tragam maiores benefícios à cidade futuramente. Há promessas de mais e viabilidade de menos.’ Lembrei-me dos esqueletos de prédios, de bairros com ruas sem calçamento, da qualidade da saúde pública. Tirou-me da indecisão.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br