Estamos celebrando o último domingo do mês de setembro. Neste dia, recordamos, de maneira toda especial, a Bíblia.
Nenhum outro livro foi raduzido para tantas línguas e chegou a tantos povos como a Bíblia, onde está a Palavra de Deus. Mesmo escrita há séculos, consegue ser sempre atual e importante para qualquer momento de nossa vida. A liturgia deste 26º Domingo do Tempo Comum se apresenta com uma série de ensinamentos, que manifestam a essência da Bíblia. Claramente, podemos ver, pelas palavras de Jesus, que ninguém pode autodenominar-se dono da verdade e muito menos se sentir como exclusivamente único na promoção do bem, em nome de Deus. Temos que ser capazes de reconhecer e aceitar a presença e a ação do Espírito de Deus, através de tantas pessoas boas não pertencentes à nossa instituição, que talvez não pratiquem os mesmos ritos e devoções por nós praticados, nem professem nossa fé, mas que também são sinais vivos do amor de Deus neste mundo.
PRIMEIRA LEITURA — NEEMIAS 11
O povo de Israel encontra-se em caminhada pelo deserto, libertando-se da escravidão do Egito. Moisés foi chamado por Deus para liderar o processo de conquista de uma terra de liberdade e vida. Esse chamado não significa a prática de poder centralizado. Acima de tudo, é necessário garantir o projeto de Deus. Moisés é um dos protagonistas, mas não o único.
Os setenta anciãos representam as lideranças necessárias para animar a organização social conforme a inspiração divina. Por isso, Deus lhes concede seu Espírito a fim de que cumpram sua missão com fidelidade. Eles exercem a profecia, isto é, falam e orientam o povo em nome de Deus.
Os setenta anciãos estão na mesma tenda com Moisés. Pertencem, portanto, ao grupo íntimo do principal líder. A tenda de Moisés é o espaço oficial das decisões a serem tomadas para todo o povo. Mas eis que duas pessoas que não se encontravam na tenda de Moisés também recebem o mesmo dom do Espírito e começam a profetizar no meio do acampamento.
O texto conservou o nome dos dois: “Eldade” que significa “Deus é amigo”; “Medad”, “Deus é amor”. Um jovem correu para informar a Moisés, certamente preocupado com a autonomia dos dois novos profetas que cumprem sua missão sem uma delegação oficial. Josué, que será o substituto de Moisés na condução do povo, sugere-lhe que os proíba.
Moisés o corrige. O que importa é que os dons de Deus, distribuídos conforme sua vontade, sejam acolhidos e administrados para o bem de todos. Os dons divinos não obedecem aos interesses de instituições oficiais. Deus é soberano em suas decisões, e sua liberalidade é extraordinária. Oxalá todo o povo se deixe conduzir pelo Espírito de Deus!
SEGUNDA LEITURA — TIAGO 5
Tiago, com palavras duras e contundentes, denuncia a situação social em que os pobres estão sendo oprimidos. Percebe-se que os ricos são grandes proprietários de terras que se aproveitam da mão de obra de pobres trabalhadores pagando salário irrisório (ou retendo) e reduzindo-os à condição de escravos. A riqueza acumulada nas mãos desses senhores, fruto do suor e do sangue dos oprimidos, se tornará motivo de sua própria condenação.
Todo o ouro e a prata, apesar de serem metais naturalmente consistentes, estão corroídos pela ferrugem. Os bens acumulados à custa de injustiça carregam a “ferrugem” da maldade. Eles serão usados como testemunhas contra os seus donos, pois o grito dos injustiçados sempre é acolhido por Deus, que é justo e verdadeiro.
Ao longo da Bíblia encontramos frequentemente alusão ao uso dos bens materiais. Desde o episódio do maná no deserto, pelo qual Deus alimentou o seu povo, nos é dada a orientação de que não se pode acumular, pois o acúmulo apodrece. Chama a atenção o fato de que a salvação ou a condenação está ligada ao modo como cada um administra os bens. Não podemos reter ou privatizar o que Deus concedeu para a vida de todos.
EVANGELHO — MARCOS 9
Domingo passado refletimos sobre evangelho de Marcos onde os discípulos, após discutirem, pelo caminho, sobre quem deles seria o maior, recebem em casa uma instrução especial de Jesus. O texto de hoje é a continuação. No caminho, eles não apenas haviam discutido quem seria o maior, mas também tentaram impedir que alguém que não pertencia ao seu grupo realizasse boas ações em nome de Jesus.
Essa é mais uma atitude que revela o grau de imaturidade em que se encontravam os discípulos de Jesus. Eles também já haviam sido enviados por Jesus para pregar o Evangelho. Certamente sentiram-se privilegiados por serem escolhidos por Jesus e enviados por ele para tão grande missão. O que eles não esperavam é que outras pessoas, além deles, pudessem realizar as mesmas obras. Ficaram aborrecidos e enciumados.
Jesus, que veio ao mundo para salvar a todos, procura instruir os discípulos para que mudem de mentalidade e de atitude: “Não o impeçai... Quem não é contra nós, está a nosso favor”. Com isso, Jesus está alertando que pode haver pessoas que pertencem ao círculo íntimo dos discípulos, mas são contra ele; ele está colocando o projeto de vida para todos acima das pretensões pessoais. Não se pode fazer uso do nome de Deus ou, da religião para satisfazer interesses pessoais ou para disputas de poder. É preciso extirpar tudo o que contradiz o Evangelho e causa dano aos que querem entender e praticar verdadeiramente o que Jesus pede. A missão de promover a vida digna de todos constitui-se em serviço abnegado e humilde e não em uma forma de projeção social, de exploração do sentimento religioso dos pequeninos ou de outras intenções agoísticas.
José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br