Correto, paciente, profissional. E cidadão
Júlio Rocha – o personagem Enzo, filho do Pereirinha construído por José Mayer em Fina Estampa, e integrante da última edição do Dança dos Famosos do Domingão do Faustão – veio ao Top Franca para conferir toque de celebridade à entrega de troféus e certificados a empresas, pessoas e ações de benemerência francanas indicadas em pesquisa do Instituto Datalink e por internautas do GCN.net.
Agregou mais que esse toque . Disponível, afável, correto, paciente, profissional, enfrentou intensa tietagem de gente de todas as idades que não lhe deu um segundo de folga. Não regateou uma única foto. Nem da que lhe pedi que fizesse com minha mãe, ‘dona’ Juraci e sua cuidadora naquela evento, dona Cida, fãzona do trabalho dele na televisão.
Não se esqueceu de meu pedido. A todo momento, cobrava: onde está ‘dona’ Juraci? Vamos lá? Havia explicação. Júlio leva consigo, quando lhe possível em suas viagens, sua mãe ‘dona’ Ana Maria e o pai, ‘seu’ Eduardo.
É, no mínimo, diferente. Perguntei-lhe: “como é isso, Júlio?” E ele: “Ah, Luiz. São tão poucos os momentos da vida artística em que posso estar com meus pais. Se há a chance não deixo de carregá-los comigo.” “Moço de família”, como disse minha mãe, “coisa rara de se ver nesses tempos malucos de hoje”. Na foto que publico, da esquerda para a direita está ele, Juraci, Cida, Luiz.
CIDADANIA
Pois bem. Tem mais – e é importante – sobre o cidadão Júlio. Ele teve um irmão mais velho, José, que morreu aos 16 anos com síndrome de Duchenne. Perguntei à sua mãe, Ana, se foi esse triste fato o que o conduziu a se tornar um homem ainda mais consciente. Ela, emocionada, falou sobre a dedicação dele ao irmão, e, posteriormente, à Abdim – Associação Brasileira de Distrofia Muscular, criada por uma das mais importantes geneticistas do País, Mayana Zatz. ‘Ainda muito novo, quis doar sangue ao irmão. Viu na entidade, a oportunidade de fazer por outras pessoas, o que não pode fazer por José”.
A história da aproximação de Júlio à Abdim é contada pela própria fundadora da entidade, Mayana. Está, aliás, em seu blog, datado de 4 de fevereiro de 2010. Júlio já era ator e tinha acabado de fazer Caras e Bocas, na TV Globo. Leia:
“Já há algum tempo soube que um jovem rapaz estava querendo ajudar a nossa Abdim – Associação Brasileira de Distrofia Muscular -, mas não tinha a menor ideia de quem se tratava (confesso que vejo TV muito raramente). Ele não se apresentou como profissional de televisão. (Identificou-se) como o irmão do José. (...) apareceu na festa de Natal que o Grupo Harmonia Solidária promove há mais de 7 anos para a Abdim. (...) Eu estava no exterior e não pude comparecer. Mas seus pais, Eduardo e Ana, estavam presentes e me mandaram um cartãozinho. Foi só então que eu soube quem eles eram. Quis revê-los. Como estaria Júlio?
O nosso reencontro foi emocionante. Júlio veio com seu pai, ainda tem o mesmo olhar da criança gravado na minha memória. O ator que interpreta personagens maldosos com tanto realismo continua tão generoso quanto o menino que conheci. Por que veio nos procurar? Ele quer ajudar tantos outros meninos com distrofia muscular que nasceram depois que José, seu irmão, partiu prematuramente aos 16 anos.
Relembramos o passado. Falamos do José, dos seus ensinamentos, de quão importante ele havia sido e das lembranças boas que ele havia deixado. Lembramos também do Willian, o amiguinho que também participou da coleta noturna de sangue e a quem também sou muito grata. Recordamos como nascera a Abdim na década de 80 e da sua primeira sede, a minha sala no prédio da Biologia da USP. Contamos que com os tratamentos de hoje, a Abdim consegue hoje estender a expectativa de vida por mais de 10 anos. Da nossa luta por recursos para construir uma sede nova que atenda mais pacientes. Falamos das pesquisas atuais, da nossa esperança de tratamento com células-tronco e também das dificuldades em conseguir importar reagentes ou camundongos afetados para testes pré-clínicos. Júlio nos interrompia a cada momento: ‘Como posso ajudar? Como posso ajudar?’
Mais uma vez eu revia o menino de 20 anos atrás que nos convenceu que queria ajudar o irmão doando o que ele tinha de mais precioso: o seu próprio sangue. Mesmo depois de ter se consagrado como ator, dos holofotes, do glamour, do assédio da imprensa e dos fãs, Júlio continua com a mesma garra. Preocupando-se com tantos outros Josés que ainda lutam, que têm esperanças.”
E, POR ÚLTIMO
Júlio é diferente. Não se encastela no sucesso que alcançou para olhar o mundo por cima. É exemplo a ser seguido por gente que tem vontade ou motivação para participar de causas justas, mas ainda não decidiu. Que seus ‘Como posso ajudar? Como posso ajudar?’ se multipliquem.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br