Final dos anos 1800, interior das Minas Gerais. O jovem médico Placidino Brigagão vai para São Sebastião do Paraíso, hospeda-se na casa do Coronel Amaral, temporariamente. O prazo foi além do previsto. Incomodado, comunicou ao anfitrião sua mudança. Não. Não iria embora, o coronel decidiu. Prestava bons serviços e ficaria na condição de marido de Isbela do Amaral, a filha de 13 anos. Primeira década dos anos 1900. Amadeu Amaral Brigagão, filho de Placidino e Isabela abandona os estudos no segundo ano de medicina, conhece Anita Guerrieri e, em 1909 casa-se com ela. Ele tinha 19, ela 24 anos. Mudam-se para São Tomás de Aquino, onde ele monta farmácia. Perspicaz e inteligente, usando seus conhecimentos médicos, prescrevia e receitava. Curou e salvou muita gente. Vieram sete filhos: Filinha, Isbela, Milton, Edgar, Francisco, Neube e Placidino. Lia muito, escrevia bem, era poeta. Monarquista, defendia a volta da realeza brasileira. Quando sua visão começou a falhar, foi sugerida cirurgia urgente, mas teve medo. Piorou até a cegueira total e, ao lamentar, dizia que ‘a escuridão é muito triste’.
Anos antes havia se mudado para Franca, onde montou farmácia na rua Júlio Cardoso. Em São Tomás costumava comprar de caixeiros-viajantes, que também recebiam o pagamento da mercadoria. Na cidade grande, porém, começou a ter problema: a cobrança era bancária e ele não confiava em bancos: se comprou do sr. Fulano, alegava, era em suas mãos que deveria entregar o valor correspondente à compra. Metade do século XX. Quando Anita faleceu, Amadeu caiu em tristeza profunda. Perguntado como conseguia sobreviver, dizia que ‘enterrava e desenterrava garrafas no quintal para se manter ocupado e suportar a dor.’
(Lúcia H. M. Brigagão)
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