Aos 60 anos de idade, o coronel do Exército Nelson de Freitas Oliveira parece ter encontrado sua casa definitiva em Franca, depois de uma vida bastante atribulada, passando com sua família por várias cidades e regiões do País. Hoje, ele trabalha co-mo engenheiro autônomo na cidade.
Nascido em uma fazenda em Pedregulho, aos seis anos já saiu de casa para morar com a avó em outra fazenda, em Ribeirão Corrente, onde iniciou seus estudos. Mas essa experiência duraria pouco. Logo foi para Jeriquara onde concluiu o antigo primário. Aos 11 anos já estava em Franca. Morou com alguns tios e depois ficou até os 16 anos na casa de um amigo da família, Ângelo Tardivo, a quem ele reconhece até hoje como um segundo pai, responsável por vários ensinamentos que ele carregaria para o resto de sua vida.
Uma nova mudança o levou para a casa de um primo, também em Franca. Aos 18 anos, uma iniciativa despretensiosa de alguns amigos mudou sua vida para sempre. Mesmo sem muito interesse na carreira militar, ele resolveu acompanhar os amigos a Campinas para fazer as provas da Escola Preparatória de Cadetes do Exército.
Mesmo sem ter se preparado adequadamente, Nelson passou. Ficou em Campinas por três anos, de 1970 até 1972. No ano seguinte partiu para Resende, na Academia Militar de Agulhas Negras (Aman), onde fez o curso de engenharia de combate, uma área ligada à infantaria, mas que cuida basicamente de abrir ou consertar caminhos para as tropas, construindo pontes e fazendo estradas.
Depois de quatro anos, já como aspirante a oficial, foi para o Batalhão de Combate de Itajubá (MG), dando início a uma série de mudanças que o levariam a coordenar obras por esse Brasil afora.
Trabalhou em Picos, no Piauí, em obras de combate à seca, na época coordenadas pela Sudene (Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste). Depois foi recapear estradas em Iguatu, no Ceará, onde nasceu sua primeira filha, Adriana, hoje tenente e dentista da Aeronáutica, em Recife.
De lá, ele, a mulher, Maria Coelho da Silva Freitas - que era de Cristais Paulista, mas ele conheceu em Franca -, e os três filhos (além de Adriana, teve ainda Leandro e Leonardo) despencaram no mapa brasileiro, caindo em Araguari, no Triângulo Mineiro. Em 1982, fez concurso para o IME (Instituto Militar de Engenharia) e novamente foi para a estrada com a família, fixando residência na Praia Vermelha, no Rio.
Depois de formado em engenharia de fortificação e construção, o que equivale ao curso de engenharia civil, Nelson ainda mudou para o Norte. Depois, voltou para Araguari e passou à reserva em 1998.
Coincidentemente, em quase todas essas passagens, o tempo máximo de estadia foi de dois anos, perfazendo um total de mais de 20 mudanças de residência.
Comércio da Franca - O senhor entrou para o Exército meio por acaso, sem saber se tinha muito jeito para isso. Não estranhou a rigidez da hierarquia e a disciplina?
Nelson de Freitas - Eu venho de uma família muito humilde e enfrentei muitas dificuldades na minha infância e minha adolescência. Nas férias, trabalhei muito na roça. Quando resolvi fazer as provas na Escola de Cadetes do Exército foi para aproveitar uma oportunidade, já que não sabia direito o que fazer. Então, fui disposto a tudo e acabei me dando muito bem nessa profissão.
Comércio - Sua mãe parece ter ficado um pouco assustada...
Nelson - (risos) Minha mãe era uma mulher muito simples. Quando nos avisaram que eu havia passado nos exames e entrado na escola militar, ela achou que eu iria para a guerra e começou a chorar. Tivemos que fazê-la conversar com pessoas mais esclarecidas, de fora da família, para que ela acreditasse que era apenas uma escola militar e o começo de uma carreira.
Comércio - O exame na Escola de Cadetes não é fácil e o senhor não chegou a se preparar. Deu sorte?
Nelson - Foi um pouco de sorte sim, mas de outra natureza. Acontece que eu já tinha feito dois anos do ensino médio aqui em Franca. Com 18 anos, eu era mais velho que os garotos que estavam prestando os exames e que acabavam de terminar o antigo ginásio. Mas isso mostra também a qualidade da escola pública francana e dos meus professores daquela época, entre eles Luiz Sinele, Godofredo de Barros e d. Elza Palermo.
Comércio - Depois de formado pela Aman, o senhor acabou passando por várias cidades, ficando em média dois anos em cada uma delas. Por que tantas mudanças? Foi uma imposição do Exército ou foi seu espírito aventureiro?
Nelson - Acho que foi meu espírito. Não conseguia ficar muito tempo em um único lugar, até porque vários deles eram bastante inóspitos, como em Campos Sales, quando eu servia no quartel de Picos, no Piauí. Lá morei em uma casa sem forro e precisava deixar meus móveis totalmente encapados com plástico para que eles não fossem destruídos pela sujeira e pela poeira que invadiam a casa. E isso sem falar no calor terrível que fazia por lá. Em Iguatu, no Ceará, os pernilongos praticamente dominavam a casa e a cidade. Em Porto Velho, cheguei a pegar malária e me arrisquei muitas vezes naqueles pequenos aviões que seguiam por cima da selva baseados apenas no “olhômetro” dos pilotos. Mas o principal foi sempre minha vontade de conhecer novos lugares.
Comércio - E sua mulher nunca reclamou?
Nelson - Pelo contrário. Ela sempre chegava com o caminhão de mudança logo atrás de mim, até mesmo antes que eu conseguisse um lugar adequado para instalar a família. Ela também gostava de conhecer novos lugares.
Comércio - O senhor começou em um Batalhão de Combate. Por que a mudança para a área de construção?
Nelson - Era um sonho. Na época eu tinha na cabeça o trabalho que fazia o Batalhão da Amazônia, responsável pela reforma e construção de mais de 3 mil quilômetros da trilha que foi aberta ainda por Rondon, quando de sua viagem por aquela região.
Comércio - Como foi sua primeira experiência no quartel de Picos?
Nelson - Eu fui deslocado para a região de Campos Sales. Eram obras de combate à seca coordenadas pela Sudene e precisávamos construir vários açudes espalhados pelas cidades da região. Cheguei a ter 5 mil homens trabalhando sob meu comando. Só no açude próximo à cidade de Assaré eu tive 1.026 trabalhadores. E eles fizeram tudo no braço. Escavaram, compactaram a terra e fizeram as paredes. A idéia era trazer água para a região e também empregar aquelas pessoas. Mas o mais interessante era o pagamento. Eles recebiam 15 dias em cesta básica, que era chamado de “feira”, e 15 dias em dinheiro. A distribuição das cestas básicas já era um problema, mas a do dinheiro era ainda mais complicada. Eu recebia do Exército em notas de alto valor, mas precisava trocá-las para poder pagar todo mundo. Então eu colocava o dinheiro em uma daquelas caixas de máquina de escrever antiga e ia com o motorista para uma agência bancária de outra cidade. Lá eu trocava o dinheiro, que obviamente não cabia mais na caixa da máquina de escrever. Então eu saía com essa caixa e mais um saco cheio de dinheiro, como se fosse um saco de milho ou café. E depois ia de canteiro em canteiro distribuindo o pagamento.
Comércio - E nunca foi roubado? Nunca aconteceu nada?
Nelson - Nunca aconteceu nada e olhe que eu nem andava armado. Penso que havia muito respeito em relação ao Exército e ao trabalho que nós estávamos fazendo. Eu sempre me dei muito bem com todos os trabalhadores. Sentava com eles, comia com eles. Da mesma forma, me entendia bem com os moradores da região. Sempre dava carona e nunca cobrava, diferentemente dos fazendeiros que levavam, mas sempre cobravam a “passagem” no final.
Comércio - O senhor acha que em função do trabalho que vocês faziam a imagem do Exército nessas regiões mais pobres era melhor do que aquela percebida nas regiões mais desenvolvidas, que nessa época de ditadura já começavam a questionar o poder dos militares?
Nelson - Acho que sim. A imagem do Exército era ótima por onde trabalhei. Mas podia ser melhor também nas áreas mais desenvolvidas se as pessoas soubessem mais sobre os trabalhos que o Exército realizou no Brasil, mesmo nessas regiões mais desenvolvidas. Até as últimas décadas do século XX, a grande preocupação das Forças Armadas brasileiras era com o cone sul, por conta das divergências com os países vizinhos. Quase toda a malha ferroviária do tronco sul foi construída pelo Exército. A ferrovia que liga Uberlândia (MG) a Brasília foi também quase toda construída pelo Exército. Depois de 1964, veio a preocupação com a Amazônia e com o desenvolvimento do interior do Brasil, o que desembocou na criação de diversos quartéis espalhados pelas fronteiras dessas regiões e que foram muito importantes no sentido de levar o desenvolvimento para esses lugares aonde não chegava a iniciativa privada, pelo menos naquele momento.
Comércio - O senhor trabalhou em obras coordenadas pela Sudene, um órgão governamental acusado de muitas irregularidades no que ficou conhecido no país como a indústria da seca. Muitos políticos e fazendeiros foram acusados de se apropriar de boa parte dos recursos destinados a essas regiões. O senhor, em seu trabalho operacional, conseguia perceber essas irregularidades?
Nelson - No que diz respeito ao meu trabalho de coordenação e gerenciamento de obras e de pessoas, posso garantir-lhe que nunca houve desvio nem qualquer outra irregularidade. Ao contrário, o Exército estava ali para justamente garantir a lisura de todo o processo, o que fazia com fiscalização, inspeção e muito rigor. O dinheiro que chegava as minhas mãos era totalmente repassado aos trabalhadores, até porque se assim não fosse haveria certamente greves e muita reclamação. Quanto às questões políticas, essas eu realmente não tinha acesso como primeiro tenente e depois como tenente-coronel. De qualquer forma, acredito que essa seja uma questão de postura. Mesmo quando trabalhei como engenheiro autônomo, nunca dei chance para que alguém me propusesse alguma irregularidade. Não fui criado dessa forma.