09 de julho de 2026

‘Hugo Cabret’ é destaque no especial Cinema & Psicanálise


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O ator britânico Asa Butterfield começou sua carreira em 2006, mas, foi em 2011, ao interpretar o jovem Hugo Cabret é que seu nome tornou-se destaque

Comentar, à luz da psicanálise, A invenção de Hugo Cabret é tarefa complexa frente à riqueza e sofisticação deste filme, que venceu o Globo de Ouro na categoria de melhor diretor, Martin Scorsese, e também foi premiado no Oscar em cinco categorias, dentre elas a de melhor fotografia e direção de arte.

Inspirado num livro homônimo de Brian Selznick, o enredo do filme nos mostra o drama de Hugo Cabret (Asa Butterfield), um menino que fica órfão abruptamente e que na luta por sobrevivência, precisa viver escondido entre as paredes de uma estação de trem em Paris, na década de 30, e trabalhar acertando os grandes relógios deste local. Solitário, o menino vivia à margem, não possuía lugar no coração de ninguém e nem condições de elaborar o luto pela morte do pai. Mas o desamparo de Hugo não o impediu de buscar um caminho para resgatar seu senso de existência. Ele se movimenta a todo custo, para consertar um robô que havia herdado de seu pai. Como é rica a imagem do autômato! A forma pela qual foi construída essa figura no filme nos mostra a genialidade de Scorsese, nos faz pensar nos ‘automatismos’ dos personagens e questionar quem estava ‘estragado’.

É na busca pelas peças que lhe faltavam para consertar o autômato, que a trajetória de Hugo se cruza com a de Méliès (Bem Kingsley), um homem mais velho, amargurado, que tinha uma loja de brinquedos na estação, a qual havia sido roubada pelo menino.

Inicialmente não é revelada a identidade de Méliès (parece que ele mesmo a havia perdido) e o traço de mistério e aventura do filme nos leva a uma estória intrigante de turbulentos encontros e choques entre o presente e o passado. Vamos compreendendo o estado emocional deste homem melancólico, que acreditava que sua carreira de cineasta estava arruinada.

Mesmo ocorrendo em contextos e etapas de vidas diferentes, havia uma semelhança entre a experiência emocional de Hugo e a de Méliès. O sofrimento do menino e do homem nos permite pensar na condição precária do ser humano ter uma sustentação psíquica em condições de adversidade. Por outro lado, o filme traz esperança e mostra a possibilidade de se resgatar a vitalidade, a partir de parcerias amorosas.

Neste enredo, é importante observar como as principais personagens femininas, Isabelle (Chloé Grace Moretz), a amiga de Hugo, e Mama Jeanne (Helen Mc Crory), esposa de Méliès, ajudaram seus parceiros a se libertarem de suas amarras e automatismos psíquicos. Outro personagem do filme que merece destaque é o Inspetor da Estação (Sacha Baron Coen), um homem cruel, aleijado, que tem uma prótese na perna, e cuja missão é perseguir, prender e mandar para o orfanato as crianças sem família, que roubam na estação. É uma figura peculiar, uma caricatura de gente, o mais robotizado do filme, que por não conseguir perceber a própria solidão e desamparo, fica preso na vingança e se impõe o objetivo de eliminar, no ambiente externo, a orfandade que não suporta enxergar. Este funcionamento mental é o que mais amputa seu desenvolvimento.

A partir deste filme, que parece um sonho, mesmo expressando realidades dolorosas do viver, podemos continuar “sonhando” e elaborando outras reflexões, na discussão que será realizada no Centro Médico, após exibição do filme, neste sábado, 15, a partir das 15 horas.