08 de julho de 2026

Voluntariado iludido


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Faz muito tempo que venho dizendo que não devemos deixar unicamente para o governo algumas coisas que, como cidadão, podemos fazer. É evidente que não cabe a quem paga os seus impostos assumir funções que competem ao poder público. Sempre fiz questão de dizer que a participação popular dá credibilidade ao governante, dá ao munícipe o direito de cobrar, e faz com que ele, o cidadão, ajude a zelar pelo que foi feito.

Sempre defendi esse tipo de parceria. Defendi e coloquei em prática, tanto nos cursos profissionalizantes, onde atendemos a milhares de pessoas, como também no trabalho junto ao esporte. Sempre ajudamos na construção e manutenção de praças esportivas, mas exigimos, todas as vezes, que os beneficiados dessem a sua parcela de contribuição, fosse como mão de obra, ou como parceiros na obtenção de recursos, ou mesmo na manutenção do que foi construído.

Um tanto fora de moda, o termo terceiro setor foi dando espaço para as tais organizações não governamentais (ONGs), muitas das quais se desvirtuaram do seu objetivo principal, e acabaram maculando entidades de ilibado conceito.

Esse é, infelizmente, um fato que se repete em nosso País. Por erros de um ou de outro, todo um trabalho, todo um segmento acaba penalizado, jogado no mesmo balaio destinado aos que agiram com má fé ou levianamente.

Abri o texto falando sobre solidariedade, mas o motivo do comentário é outro, a convocação de voluntários para a Copa do Mundo. O País está prestes a realizar um dos eventos mais importantes em todo o mundo, e no entanto algo continua nebuloso. Não bastasse o volume de recursos que estão sendo consumidos, e os aditamentos que ainda serão incluídos nos contratos, não sabemos o que está por trás dessa convocação.

No anúncio deixaram claro que o voluntário deverá trabalhar durante 20 dias seguidos. Vendeu-se a ideia de que ele terá pleno acesso aos locais dos jogos, terá tudo ali, ao vivo, bem à sua frente. Iludido, o voluntário desconhece que poderá ficar do lado de fora, apenas ouvindo os gritos e apupos em quase todos os idiomas.

Esquece-se de que a competição é realizada no nosso inverno, e que em boa parte do País poderemos ter frio intenso, e o voluntário poderá ser obrigado a permanecer horas a fio, em pé, em condições insalubres. Lança-se no ar um ‘quê’ de patriotismo talvez para mascarar que, além de atuar sem qualquer remuneração, o voluntário é incitado a trabalhar em nome do evento, mesmo sabendo que em seu bojo estão grandes interesses financeiros e comerciais dos organizadores.

Repetindo o que temos dito há alguns meses, a Fifa chega, dita as normas, exige salões requintados, pratos finos, pessoal dócil para com os seus desejos, e vai embora com os bolsos cheios.

Deixa para o país-sede estádios modernos que raramente terão lotação esgotada e uma dívida astronômica.

E, no Brasil, com um agravante, o de usar trabalhadores ingênuos, muitas vezes motivados pelo poder de estar alguns segundos ao lado de ídolos, ou na busca pela ilusão de uma imagem fugaz em alguns órgãos de imprensa.

Vitor Sapienza
Deputado, presidente da Comissão de Ciência, Tecnologia e Informação da Alesp