Em um tempo não muito distante, em quase toda vila tinha um desequilibrado mental. O Centro também contava com o seu doente psíquico. Por se tratar de louco manso, desde que não fosse molestado, não agredia ninguém. A convivência com esse tipo de gente dependia das circunstâncias e a população demonstrava apreço pelos seus perturbados mentalmente.
Aliás, a estima vinha primeiro da própria casa. A família cuidava a contento de quem não se encaixava bem dentro dos parâmetros normais.
O louco manso do passado não vivia sujo pelas ruas, nem consumia drogas ilícitas. Também não roubava. Quando muito, tomava umas biritas. A oferta partia daqueles que queriam ver o circo pegar fogo.
Passado o espetáculo, com o ator já semi-inconsciente, populares o levavam de volta para casa. Não deixavam o infeliz dormir na rua. No outro dia, a rotina retomava o seu curso. Uma pessoa de pouco juízo não vivia marginalizada. Na verdade, era querida pela população.
Hoje a situação está completamente modificada. Os loucos não são assim tão mansos. Além do mais, espalharam-se pela cidade toda. Às vezes, criam até uma espécie de QG para atuação constante. A predileção dos moradores de rua recai para os locais mais movimentados. De preferência, escolhem um imóvel abandonado. Na falta deste, ocupam espaços públicos.
Nesta época de seca, qualquer esquina serve de quarto. A cama acaba sendo uma caixa grande de papelão. Na falta desta, um amontoado de cobertor se espalha pela dura calçada. O indigente amanhece o dia atrapalhando os transeuntes e ninguém se condói da sina dele. Sabe que entre os molambos está um dependente de drogas.
Via de regra, o descontrole psíquico ganha contornos iniciais dentro da vivência familiar. Como a família hoje em dia não anda dando conta nem de si, a pessoa acometida de algum transtorno parte para o uso de substância alucinógena. Até mesmo o nada inocente cigarro serve de ponto de partida. Aliado ao tabaco, pode vir a bebida. Depois, chegam as outras drogas.
Instalado o ciclo, a tendência de tudo degringolar passa a ser questão de tempo. O efeito não tarda. A dúvida persiste. A pessoa fica dependente de drogas por que já possuía uma predisposição mental ou o uso contumaz foi a causa do mal psíquico? De concreto, permanece a realidade. A rua está cheia de moradores indesejados.
De início, pedem timidamente para satisfazer a dependência de drogas. Aos poucos, a necessidade de consumo aumenta. Esses moradores de rua ficam incisivos. Chegam a ameaçar a integridade física das pessoas que se negam a lhes dar umas moedas.
O próximo passo fica por conta dos pequenos furtos. O roubo vem a seguir. Daí pra frente, a sociedade perde o controle. A insegurança toma conta da população. Esse pessoal dependente de drogas não se encaixa no perfil do mendigo tradicional. Também está fora da classe de louco manso, porque agride gratuitamente e pode chegar ao assassinato facilmente.
Antônio Araújo
Articulista e professor - tonim.palavras@uol.com.br