10 de julho de 2026

‘Jovens atacam a direita com tanta violência que passam a parecer com os nazistas’


| Tempo de leitura: 9 min
Bertrand de Orleans e Bragança dá palestra na Faculdade de Direito, após ser “barrado” na Unesp

A Monarquia brasileira acabou há 123 anos. No entanto, não acabaram os monarquistas. No plebiscito de 1993, que dispunha sobre a forma e o regime de governo que deveriam vigorar no país, quase 7 milhões de brasileiros escolheram a monarquia, o que significou um percentual de 13,4% do total de votos registrados.

Apesar da derrota, a votação foi bastante significativa, o que motivou ainda mais os monarquistas a continuarem a sua luta pela restauração do trono brasileiro. Entre eles, é possível destacar Bertrand de Orleans e Bragança, descendente direto do imperador D. Pedro II e um dos principais coordenadores dessa campanha. Atual príncipe da Casa Imperial do Brasil, uma entidade sem fins lucrativos que coordena as atividades monárquicas no país, Bertrand nasceu em 1941, em Mantelieu, no sul da França - ele experimentou por um curto período o exílio a que a família real foi forçada, em 1889, quando o Brasil tornou-se uma República. Com quatro anos de idade, voltou ao Brasil junto com seu pai, Luiz de Orleans e Bragança, herdeiro direto do trono, sua mãe, a princesa da Baviera, Maria Isabel de Wittelsbach, e mais 11 irmãos.

Seu pai comprou, então, uma fazenda em Jacarezinho, no norte do Paraná, onde logo arriscou-se na cultura do café. Foi lá que Bertrand cursou o antigo primário, no Colégio Cristo Rei. Os estudos secundários foram feitos no Rio de Janeiro, no Colégio Santo Inácio. Posteriormente, formou-se em direito pela tradicional Faculdade de Direito do Largo São Francisco, hoje da USP.

Durante quase toda a sua vida, Bertrand vem trabalhando ativamente pela restauração da monarquia. Realiza eventos e profere palestras por todo o país, mostrando o que ele acredita serem as vantagens da monarquia. Seus argumentos se apoiam na longa estabilidade vivida pelo Brasil durante o Segundo Império e no desenvolvimento alcançado por vários países que ainda mantêm essa forma de governo, como Suécia, Inglaterra, Espanha, Dinamarca, entre outros.

Para Bertrand não existem dúvidas de que a melhor solução para o País seria a monarquia, até porque, de acordo ele, a República brasileira perdeu-se completamente em um mar de corrupção, algo que, segundo ele, era bem diferente nos tempos da monarquia.

Ferrenho defensor da moral e da tradição, com base na doutrina católica apostólica romana, Bertrand foi também presidente da TFP (Tradição Família e Propriedade), uma organização que tinha como meta a defesa dessas prerrogativas.

Atualmente, aos 71 anos, Bertrand, que nunca se casou, defende a casua em palestras e eventos por todo o país. No último dia 28, ele esteve em Franca para um evento na Unesp. Veio a convite de alguns estudantes. Acabou sendo impedido de falar por um grupo a quem chamou nesta entrevista de “ignorantes” (leia mais na pág. 13).


Comércio da Franca - Comecemos pelo episódio da Unesp. O que aconteceu, na sua opinião?
Bertrand de Orleans e Bragança -
Foi um episódio lamentável. Eu tenho pena desses jovens. São fanáticos fora da realidade. Ainda estão presos a uma ilusão socialista que não existe mais em nenhum país do mundo. Acabou na Rússia, acabou em Cuba e até na China. Infelizmente, eles ainda se prestam a servir de instrumentos para algumas organizações que em nome de um já enterrado socialismo tentam partir para o radicalismo. Atacam a direita, chamando-a de nazista, mas fazem isso com tal violência que no fundo passam a parecer-se com os próprios nazistas. Aliás, entre a esquerda radical e a direita radical não há mais que algumas diferenças cosméticas.

Comércio - Como o senhor de sentiu sendo chamado de nazista?
Bertrand -
Aquilo foi de uma ignorância absurda. A família de minha mãe é de Munique. Na época, a família rompeu com Hitler e acabou sendo obrigada a fugir da Alemanha. Tive uma tia que não conseguiu e foi bastante torturada pela polícia nazista, vindo a falecer alguns anos depois, em decorrência das sequelas dessa tortura. Então, me chamar de nazista é confundir tudo. Direita é uma coisa, nazismo é outra completamente diferente. Para mim isso é muita ignorância. Ignorância histórica inclusive.

Comércio - Eles também acusaram o senhor de ser intolerante em relação ao homossexualismo. Isto procede?
Bertrand -
Eu pertenço à Igreja Católica Apostólica Romana. Sigo o que está escrito na Bíblia e não faço concessões a essas libertinagens que existem hoje em dia. O Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, condena o ato homossexual. Se a doutrina católica diz que é pecado, então eu sou contra, como também sou radicalmente contra o aborto. E se você for ver bem, a maioria dos brasileiros, que é católica, também não aprova o homossexualismo. Mas, além das leis da igreja, nossa Constituição também diz que o casamento se dá entre um homem e uma mulher. Então o casamento entre homens ou entre mulheres está fora da lei.

Comércio - Mas nos últimos meses os homossexuais conseguiram várias vitórias importantes na Justiça, como a união estável, a possibilidade de adoção, entre outras. Como o senhor analisa isso?
Bertrand -
É bom que se diga que nem todos interpretam essas decisões do STF (Supremo Tribunal Federal) da mesma maneira. Há quem acredite que elas vão contra a Constituição Federal, o que as tornaria inconstitucional. E eu acredito que devemos seguir a Constituição e não algumas leis pontuais.

Comércio - O senhor tem enfrentado regularmente esse tipo de manifestação ou essa foi a primeira vez que o senhor foi hostilizado e impedido de falar?
Bertrand -
Tenho sido muito bem recebido por onde passo. Essa manifestação foi uma exceção. Mas é importante frisar que foi obra de uma minoria. Uma minoria tirana que não sabe ouvir. A maioria dos jovens queria a palestra e foi muito respeitosa. No outro auditório, tudo transcorreu em clima de muita cordialidade. Houve várias perguntas e o debate foi bastante proveitoso. No final, a palestra foi muito aplaudida e vários jovens vieram tirar fotografia comigo. E, pelos comentários que li nos jornais de Franca e na internet, a cidade não concordou com a manifestação, de forma que o tiro saiu pela culatra. Os únicos prejudicados foram eles mesmos.

Comércio - O senhor acredita que a monarquia seja um tema que atraia a juventude ou mesmo parte da população brasileira?
Bertrand -
Penso que sim. O brasileiro já está cansado de tanta corrupção e de tanta desfaçatez na política. Vivemos com escândalos constantes, algo que não acontecia durante o regime monárquico. Nesse sentido, é interessante lembrar uma frase do grande jurista e político Rui Barbosa. Ele foi o autor do decreto da República, mas parece que se arrependeu rapidamente. Ele disse: “Na monarquia o Parlamento era uma escola de estadistas, mas na República transformou-se em uma escola de negócios”. E olhe que isso foi dito pouco tempo depois da Proclamação, só para você ver a lambança que estava sendo feita pelos republicanos. Por isso acredito que o brasileiro e o jovem, em especial, estejam abertos a ouvir sobre os valores e as vantagens da monarquia.

Comércio - O senhor acredita que a monarquia possa retornar como forma de governo no Brasil?
Bertrand -
Acredito firmemente. Se olharmos para o mundo de hoje, vamos perceber que entre os países mais desenvolvidos, a maioria ainda mantém a monarquia como forma de governo. E, se voltarmos um pouco em nossa história, vamos perceber que o período de maior estabilidade econômica e social experimentado pelo país foi justamente durante o Império, o que é comprovado por vários historiadores. Falta espaço para levar nossa mensagem e mostrar ao povo os benefícios da monarquia.

Comércio - Mas o senhor acha possível fazer essa comparação? O Brasil monárquico do século XIX, uma sociedade escravocrata baseada em uma economia totalmente escorada na produção de café, com o Brasil republicano do século XXI, uma sociedade mais democrática e complexa baseada na tecnologia e em uma economia diversificada?
Bertrand -
Perfeitamente. Eu me baseio nas monarquias que existem nesses países desenvolvidos, conforme mencionei. Lá eles souberam adequar muito bem o regime monárquico às mudanças que ocorrem através dos anos. Os problemas que eles enfrentam atualmente são semelhantes aos nossos. Sociedade urbana, industrial e mais complexa, economia diversificada, entre outros. A questão é que na monarquia, o rei ou a rainha funcionam como uma espécie de reserva moral do país, servem para unir o país em torno de um ideal, da ética, da honra e dos bons costumes. Tome como exemplo o recente aniversário da rainha da Inglaterra. O mundo inteiro parou para assistir, até o Brasil republicano. E sabe por quê? Porque as pessoas percebem a rainha como um fundo de reserva ético-moral, que serve de modelo para todos e é imprescindível para se forjar uma grande nação. Imagine se alguém iria parar sua vida para assistir ao aniversário de 85 anos de um senador da República, de um deputado e até mesmo de um presidente... Não estamos defendendo uma monarquia absolutista, em que o imperador decide sozinho os desígnios da nação. Queremos uma monarquia parlamentarista, com primeiro ministro para comandar as questões de governo, da política e do cotidiano.

Comércio - De 1822, quando se tornou independente, até 1889, quando se tornou uma República, o Brasil não avançou muito em alguns pontos. Na educação, por exemplo. Enquanto os países europeus universalizaram o ensino básico no final do século XVIII, no Império nós estávamos muito longe disso. Como o senhor vê essa questão?
Bertrand -
Eu discordo. Tivemos um desenvolvimento cultural muito significativo durante o Império. O nível cultural de nossas elites era muito superior ao que é hoje em dia. Em termos de escolas, só o Rio de Janeiro tinha cerca de 7 mil escolas no final do século XIX. Em nível de progresso, também é possível registrar vários avanços proporcionados pela monarquia, dentro do que era possível na época, obviamente. Fomos o segundo país a ter telefone. Nossa Marinha chegou a ser uma das maiores do mundo. Campos foi a primeira cidade da América do Sul a ter energia elétrica. A cidade do Rio de Janeiro foi uma das primeiras cinco do mundo a ter esgoto e água tratados e nossa malha ferroviária também avançou bastante durante o Império.

Comércio - O senhor é também um ferrenho defensor da propriedade privada. O senhor não acha que em alguns casos a reforma agrária poderia ajudar a diminuir as desigualdades em nosso país?
Bertrand -
De modo algum. Eu desafio qualquer sociólogo ou economista a me apresentar uma única reforma agrária que deu certo no mundo. Não adianta dar terras, sobretudo para pessoas desses movimentos sociais que não têm nenhuma relação com a terra, só estão querendo ganhar um pedaço de “chão” para poder vendê-lo depois. O que é necessário é dar condições para que as pessoas que realmente se identificam com o trabalho na terra consigam comprá-la.

Comércio - Permita-me uma última provocação. Se a monarquia tinha todas essas qualidades, por que ela caiu diante da República? Por que o povo não a apoiou?
Bertrand -
Porque no fundo a Proclamação da República foi um golpe. O Decreto nº 1 da República, em seu Artigo 7º, dizia que em breve deveria ser feita uma consulta popular para se saber qual a forma de governo que o povo brasileiro queria para sua nação. Esse plebiscito, porém, só veio ocorrer em 1993, 104 anos depois da Proclamação da República. E a família real foi quase que imediatamente banida do Brasil. Como eu disse, a República foi um golpe militar, não havia onde buscar apoio.