20 de março de 2026

Era assim


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A preparação para o grande evento patriótico começava meses antes

Dona Helena Barbosa, professora de Educação Física das meninas do Instituto de Educação Torquato Caleiro, escolhia entre as centenas de alunas aquelas que iriam ocupar lugar de maior destaque na grande festa do 7 de Setembro, no campo do Palmeirinhas. Elas seriam guias, colocadas sobre pedestal mais alto, para servirem de parâmetro para as demais colegas. Não era exatamente concurso de miss. Ela observava predicados não apenas físicos, mas levava em conta a graça, a leveza, a desenvoltura, o ritmo de cada uma. Com ela não tinha aquela prática, até comum na época, de privilegiar alguém pelo pedigree. Longilíneas, curvilíneas, gordinhas, bonitas, lindas, feinhas e as muito feias eram analisadas e, às vezes, escolhidas por outras prendas e atributos. Elas as treinava o ano todo durante suas aulas de EF para as quais iam tontas de sono porque começavam cedo, muito cedo, antes da primeira aula das que seriam dadas nas salas do imenso prédio. Às vésperas do grande dia, intensificavam-se os ensaios, que eram divertidíssimos: fora do horário padrão das aulas, tinham permissão doméstica para ir, atrasavam a volta e – maravilha! – podiam ver e serem vistas pelos meninos do Champagnat que, não me lembro como, também começaram a fazer parte da festa. Houve época em que as meninas do Lourdes e do Coleginho também participaram, embalde as freiras ficassem horrorizadas com as pernas de fora do uniforme de ginástica das alunas da dona Helena.

Ela preparava as meninas, o professor Pedro Morila Fuentes preparava os meninos. (Nunca soube se é verdade o que a lenda conta: que ele teria mandado querido e conhecidíssimo aluno da escola pixar nas paredes internas do muro no espaço de Educação Física do IETC a lendária frase assinada por um tal de Barão de Coubertin: “O importante não é vencer, é competir!”. Mais do que naquele tempo, hoje acho que ele seria sim, capaz de dar a ordem, apaixonado por esportes como era.)

Aí chegava o 7 de Setembro. Uniformes comuns e os especiais pendurados nos cabides, quédis tinindo de branco, meias branquíssimas, íamos primeiro ao grande desfile que começava na Avenida Presidente Vargas, descia pela Major Claudiano, circundava a Praça Nossa Senhora da Conceição, passava pelo palanque das autoridades – onde estava o Prefeito, os poucos Vereadores, o Delegado de Polícia, o Delegado de Ensino, algumas senhoras (deles), alguns papagaios de pirata – aqueles que ficam no ombro das celebridades e a-do-ram aparecer. Todo mundo concentradíssimo. O desfile começava com o dos rapazes do Tiro de Guerra, seguia com o dos Veteranos da Segunda Guerra e os do Nove de Julho, continuava com os das escolas: IETC, Champagnat, Coleginho, Pestalozzi. Em seguida, a grande demonstração de ginástica, no campo de futebol do Palmeirinhas. Pais, mães, irmãos, avós, tios, padrinhos, namorados, paqueras, pretendentes, todos se acomodavam nas toscas cadeiras e arquibancadas do campo de futebol. Todo mundo queria ver o espetáculo, que tinha início com o Hino Nacional. Aí entrava dona Lúcia Ceraso. A gente cantava no gogó mesmo, ninguém errava a letra, ninguém prolongava as sílabas da fatídica estrofe: “Gigante pela própria nature-ê-za, és belo, és forte, impávido co-lo-ô-sso, e o teu futuro espelha essa grandeza”, etc, etc, porque sabia que dona Lúcia era capaz de interromper tudo e gritar o nome da pessoa que cantou errado, matando-a de vergonha.

Antes do desfile, porém, dona Helena passava a “tropa” em revista: ia arrancando brincos, colares, pulseiras, travessinhas, passadores das meninas que, renitentes, não obedeceram ao aviso de neca de enfeites ou adereços no 7 de Setembro. Olhava, apontava detalhes, omissões. A gente tremia quando ela vinha esquadrinhando a tropa. Ninguém morreu por isso. Ninguém a levou a tribunal. Ninguém a acusou de assédio. Ninguém contestou dona Lúcia, dona Helena ou o sr. Pedro que eram exigentes no mesmo calibre. Aquelas gerações de alunos aprenderam a cantar todos os hinos, reconhecer todos os símbolos patrióticos, saber de cor e salteado o significado de cada data. Entenderam o que era civismo. Souberam valorizar civilidade, polidez, urbanidade, delicadeza e cortesia. Para aquela geração professor era professor, não era tio ou tia de ninguém. Não batia, mas também não apanhava. E os alunos tinham vergonha na cara, o que aprendiam em casa. Bons tempos.

Sonho
Pierre de Frédy, ou Barão de Coubertin, nasceu em Paris em 1 de janeiro de 1863. Pedagogo e historiador, passou para a história como fundador dos Jogos Olímpicos da era moderna. Organizou congresso internacional em Paris, no ano de 1894, quando propôs que fosse reinstituída a tradição de realizar evento desportivo internacional periódico, inspirado naqueles realizados na Grécia antiga.

COI
Para tanto, fundou o Comitê Olímpico Internacional (COI), do qual seria secretário geral. Da mesma forma, sugeriu que Atenas sediasse o primeiro evento da era moderna, que seriam, a partir desse e como na antiguidade, realizados a cada quatro anos – Olimpíada. Dois anos após o congresso realizaram-se, com sucesso, os Jogos Olímpicos de Verão de 1896. Quando Demetrius Vikekas, naquele mesmo ano, abandonou a presidência do COI, Coubertin passou a liderar a organização. Se as primeiras demonstrações esportivas foram sucesso, os campeonatos de 1900 e 1904 foram obscurecidos pelas exposições mundiais em que foram integrados. Passaram despercebidos.
Reabilitação

Em 1906, sob o pretexto de comemorar 10 anos de existência, foi realizada espetacular edição que limpou a imagem de insucesso da realização anterior e promoveram os jogos como acontecimento internacional por excelência. Desde então os Jogos Olímpicos ganharam fama, notoriedade e se tornaram o mais importante evento desportivo mundial.

Morte
Após a edição de 1924, Coubertin abandonou a presidência do COI embora se mantivesse na diretoria como Presidente Honorário, até sua morte em 1937, em Genebra. Morreu pobre e isolado: para colocar em prática o sonho das Olimpíadas, ele gastou praticamente toda sua fortuna. Seu corpo está enterrado em Lausanne (Suiça) local da sede do COI, mas seu coração foi sepultado separado, em mausoléu, perto das ruínas da antiga Olímpia, onde tudo começou.