Deus nos reúne junto do seu coração e, por meio da sua Palavra, ensina o valor do compromisso cristão que devemos possuir
Ele não se contenta com uma religião firmada em palavras ou apenas orações. A religião que agrada a Deus é aquela que aproxima nosso coração do dele, nos faz enxergar as necessidades do mundo e, diante delas, agir. Aprendamos com a Palavra do Deus.
PRIMEIRA LEITURA — DEUTERONÔMIO 4
A parte do Livro do Deuteronômio do qual é extraída a leitura de hoje foi escrita em Babilônia, durante o dramático período do exílio. Israel perdeu a liberdade, a honra, a terra dos seus pais, o templo onde prestava culto ao seu Deus e recorda, com saudade, os tempos dos grandes reis Davi e Salomão, quando era uma grande nação, respeitada e temida pela sua força e pela sua sabedoria.
Agora, ao contrário, está reduzida a um grupo insignificante, humilhado e disperso entre as nações. Nessa situação desesperadora, eis que surge entre os exilados um homem piedoso que reanima seus companheiros de infortúnio. Nem tudo está perdido diz ele. “Ainda nos resta um grande dom de Deus, uma dádiva que nos torna preclaros entre todos os povos da Terra: a nossa santa Lei”.
Essas palavras de conforto são transcritas, e para distingui-las com o mais alto valor, são atribuídas a Moisés. Formam os primeiros capítulos do Deuteronômio. O piedoso israelita manifesta toda a sua altivez pela sublime legislação que Deus confiou ao seu povo. Proclama aos seus compatriotas: “Os povos, conhecendo todas estas leis, reconhecerão: esta grande nação é o único povo sábio e inteligente... Qual é a nação, de fato, que tem leis e normas tão justas como estas?”.
As nossas comunidades, muitas vezes, sentem-se envaidecidas por causa do funcionamento perfeito das suas estruturas.
Em muitos lugares as comunidades cristãs são conhecidas e apreciadas, sobretudo pelas suas atividades beneficentes. Entretanto, um dia, essa atividade subsidiária pode não ser mais necessária, podendo ser substituída pela presença das instituições do Estado. Então, o que sobra para estas organizações, como poderiam destacar-se, como poderiam aparecer, como poderiam marcar presença?
Seriam fracas e sem destaque aos olhos dos homens, mas, como aconteceu com Israel no exílio, lhes restaria o tesouro mais valioso, a dádiva maior que os homens podem receber: a Palavra de Deus, o evangelho.
SEGUNDA LEITURA — SÃO TIAGO 1
Começa hoje e nos acompanhará durante cinco domingos a carta de Tiago, obra rica de conselhos práticos. A passagem de hoje trata sobre a Palavra de Deus. Não é suficiente, porém, ouvir a palavra, para conseguir a salvação. Se quisermos que produza frutos, deve ser “acolhida com docilidade”, isto é, com o espírito disposto. Se o coração não estiver inclinado a converter-se e deixar-se transformar, então a mesma é como uma semente que cai sobre uma pedra: morre sem nada produzir. É como se nunca tivesse sido ouvida. Tampouco, porém, é suficiente a escuta dócil e atenta: é necessário “praticar a Palavra”. A escuta que não determina uma mudança de vida é inútil.
Por fim, para aqueles que, em vez de alicerçar a própria prática religiosa na Palavra de Deus, a edificam em cerimônias, formalismos, ritos, práticas devocionais fúteis, Tiago esclarece que a verdadeira religião consiste em “socorrer os órfãos e as viúvas nas suas aflições e conservar-se puros da corrupção deste mundo”. Para praticar essa forma de religião, ensina Tiago, é necessário manter-se “puros” isto é, “desapegados dos bens deste mundo”.
EVANGELHO — SÃO MARCOS 7
Após termos meditado durante cinco domingos consecutivos sobre o capítulo 6º de João, retomamos a leitura do Evangelho de Marcos, que nos acompanhará até o fim do ano. A questão levantada hoje diz respeito a um elemento central da religião judaica: as purificações.
Alguns discípulos tomam as refeições “com as mãos impuras”, isto é, sem lavá-las, e isto provoca a reação dos custódios da lei. Cada transgressão é tida como infidelidade a Deus e às tradições sagradas. No tempo de Jesus as purificações têm uma importância e um valor religioso muito relevantes. As disposições dos rabinos têm o mesmo valor que a Palavra de Deus. Adquiriram o mesmo valor que os preceitos mais sagrados contidos na Bíblia.
Jesus se insere na linha espiritual dos profetas e dos piedosos mestres da vida religiosa do seu tempo, indica a renovação do coração e assume uma posição rígida contra a religião quando reduzida ao cumprimento de um código jurídico. Afirma categoricamente que, para Deus, não interessam de forma alguma a pureza exterior, os formalismos, as solenes liturgias do templo, as aparências. ,
Deus também não gosta de relação com ele baseada na observância de um código... Para descobrir a religião do amor é preciso contar com pessoas adultas.
José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br