10 de julho de 2026

Venda de antidepressivos cresce 44,8% nos últimos quatro anos


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Ednilson Borges e Liliane Nascimento, da Drogafarma, com uma cesta de medicamentos antidepressivos

A maior rede de farmácias em Franca vende cerca de 800 caixas de fluoxetina, um dos remédios mais conhecidos para tratamento de depressão, por mês. O alto número revela que o município segue os índices crescentes brasileiros, onde a venda de medicamentos antidepressivos e estabilizadores do humor inflou 44,8% nos últimos quatro anos, segundo dados do IMS Health, instituto de pesquisa que audita o mercado de medicamentos para a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Em Franca, faltam dados estatísticos, mas apenas um medicamento, a fluoxetina, teve um aumento de vendas em dois anos exorbitante: 450%, segundo Fabrício Pedroza, dono da Drogafarma. Em 2010, a rede vendia apenas 180 caixas por mês.

De acordo com Ednílson Braga, gerente de uma das unidades Drogafarma, o perfil de quem compra antidepressivos é variado, mas as mulheres ainda são maioria. A faixa etária também não segue padrão, mas há mais procura por pacientes de 30 a 40 anos.

O número deixa em alerta uma ampla fatia da sociedade médica, que acredita que os remédios são receitados muitas vezes sem uma real necessidade ou, mesmo quando necessários, não são utilizados pelos pacientes conforme orientação médica. De acordo com a psiquiatra e psicoterapeuta Elisabeth Sene Costa, autora do livro Universo da Depressão, não são raras as pessoas que querem curar tristezas naturais, como separações, desemprego ou um luto com a medicação antidepressiva. “Nesses casos, o indicado não são as drogas e sim uma terapia para ajudar a superar a causa do sentimento ruim. A doença da depressão é outra coisa e essa sim merece cuidado especial.”

Elizabeth diz que essas pessoas se sujeitam a efeitos colaterais, comuns em qualquer remédio, muitas vezes sem necessidade, como náuseas, tontura e boca seca. Outro risco, segundo a médica, é despertar a síndrome da descontinuação, pois, com a sensação de melancolia passando, a tendência do paciente que não foi bem orientado é cortar de repente a medicação e sentir sensações desagradáveis, o que faz muitos acreditarem terem se viciado nos antidepressivos.

Segundo Elko Perissinotti, médico vice-diretor do Hospital-Dia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, a anedonia contínua, que é a falta de prazer nas atividades, o estreitamento do campo e dos laços vivenciais (desinteresse pelas amizades, por exemplo) e variados graus de lentificação psicomotora são sintomas extremamente preocupantes e requerem tratamento imediato. Já uma situação pontual, como o luto por perda de ente querido, não deveria ser medicada, de acordo com o médico.

“Deveríamos saber que constantes situações de sofrimento são inerentes à natureza humana e deveríamos desde a infância aprender a lidar com isso. Mas não o fazemos, preferindo nos esconder atrás de pílulas, geralmente calmantes, e não antidepressivos. As pessoas estão preferindo enfrentar o mundo meio dopadas por medicamentos, álcool ou drogas ilícitas porque não aprenderam a suportar o peso da vida.”

O “abuso” dos antidepressivos, de acordo com Perissinotti, é culpa da vida estressante que a maioria das pessoas tem hoje. “Muitas vezes, mesmo rodeado de gente, acabamos sentindo muita solidão e cansaço contínuo, e esse pode ser o início de uma séria depressão”, afirma. Para ele, como as pessoas e o clínicos gerais estão melhor informados, em vez de receitar um calmante como diazepam, bromazepam e clonazepam, como se fazia há poucos anos, já receitam antidepressivos.

Ocorre, ainda de acordo com o médico, que as pessoas querem tomar remédios, mas negam-se a procurar psicoterapia, o tratamento que talvez pudesse livrá-las futuramente dos antidepressivos, mas o que se vê é o uso permanente desses medicamentos. O SUS (Sistema Único de Saúde) e os planos de saúde tornam a psicoterapia inviável para a maioria.

O psiquiatra francano Carlos Henrique Ribeiro Santos, que atende cerca de 200 pacientes por mês com depressão, diz que os antidepressivos não causam dependência. Já os chamados calmantes ou ansiolíticos viciam. “Os calmantes agem como depressores do sistema nervoso central e seu uso é controlado, vendido com receita azul. O antidepressivo, não. É vendido com receita branca”, explica. Segundo o médico, não há como traçar um perfil do depressivo. “Em Franca, ele vai do sapateiro ao empresário.”

As duas doenças - ansiedade e depressão - têm alguns sintomas em comum, mas não podem ser confundidas. Nem todo depressivo é ansioso e o contrário também pode não ser verdadeiro.

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