10 de julho de 2026

Ex-goleiro diz que os jogadores do passado eram mais habilidosos


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Garito, que teve a “honra” de tomar um gol de Pelé, com fotos da época em que jogava; ele diz que atualmente ainda assiste aos jogos e torce pela Francana

As mãos talvez já não sejam tão firmes como eram há 60 anos, tempos em que Edgar de Morais foi goleiro de vários times da região. Mas os punhos cerrados e o brilho nos olhos que acompanham suas lúcidas lembranças são mais que suficientes para mostrar a vitalidade e a energia que seus 90 anos ainda preservam, assim como seu amor pelo futebol e pela vida.

Na Francana, ele jogou de 1950 a 1952. Depois atuou por mais um ano, em 1958, antes de aposentar a luva de profissional. Passou por várias cidades, mas optou por Franca para criar seus filhos e ficar pelo resto da vida.

De origem bem humilde, nasceu em Uberaba, Minas Gerais. Ainda garoto, mais ou menos aos nove anos, começou a ser chamado de Garito, um daqueles apelidos que se impõe ao nome como um verdadeiro carma, sem que ninguém consiga explicar o motivo ou a origem.

“Foi a preta Maria Joana, vizinha e amiga de minha mãe. Ela começou a me chamar de Garito e aí o nome foi pegando. Mas eu nunca soube o motivo.”

O pai de Garito morreu quando ele tinha oito anos, deixando sua mãe, a lavadeira Dona Maria, com a nobre e difícil missão de criar sozinha Garito e mais sete irmãos, todos homens.

Foram tempos difíceis aqueles. Houve um tempo, recorda-se Garito, que precisaram morar debaixo de uma mangueira durante 28 dias, em pleno novembro, mês em que as chuvas começam a ser mais frequentes.

Como consequência dessa situação, Garito não foi longe nos estudos. Fez apenas o primeiro ano. A distância da escola, a falta de orientação e a necessidade de ajudar em casa logo o encaminharam para o mundo do trabalho.

“Uma das coisas que fiz quando garoto foi recolher esterco pelos pastos para vender nas casas ricas que tinham jardim”, lembra.

Mais para frente, quando foi assinar seu primeiro contrato com o time de São José do Rio Pardo, ganhou um documento que viria comprovar um primário nunca feito, um arranjo bem típico de nosso jeitinho brasileiro de ser.

“Não lembro o motivo, mas me arranjaram um quarto ano para eu poder assinar com o time. Mas eu não passei do primeiro.”

NA IGREJA
Mas se os estudos lhe falharam, a bola logo veio em seu socorro. Começou jogando no campo de uma igreja. Mas para chegar à alegria do jogo, precisou fazer um pouco de penitência.

“Eu e meu irmão, o Cabelo, que jogou comigo em vários clubes e também aqui na Francana, tínhamos que ir à missa das 6h. Andávamos uns dois ou três quilômetros. Depois voltávamos para casa e às 13h íamos novamente para a igreja, então para jogar. Mas, se não assistíssemos à missa, não tinha jeito, o padre não deixava jogar”, se diverte Garito.

Ao lado da igreja, havia o Colégio Diocesano de Uberaba. Os meninos do colégio, quando perceberam a qualidade de Garito, começaram a chamá-lo para jogar no time de lá. Porém, a alegria do garoto durou pouco. Como não era aluno, foi proibido de continuar jogando no campo do colégio, o que o fez voltar para a missa e para o campo da igreja.

Aos quinze anos, ao mesmo tempo em que trabalhava na roça, na Estação do Buriti, próxima a Uberaba, começou também a jogar pelo Merceana, time do bairro das Mercês, na cidade mineira.

Como estava se destacando no Merceana, logo o filho de um fazendeiro da região, o também jogador Torres Homem Rodrigues da Cunha, o levou para jogar no time da fazenda. Foram ele e Cabelo, e por lá ficaram dois anos, com trabalho, comida e futebol nos finais de semana.

“O Torres até me deu uma casa, que depois eu vendi, o que me permitiu comprar o terreno e fazer minha casa aqui em Franca.”

Depois que o time da fazenda acabou, Torres Homem quis enviar Garito para fazer um teste no Botafogo do Rio de Janeiro. Garito, porém, não quis arriscar-se na cidade grande. “Acho que tive medo. Hoje percebo que perdi uma grande oportunidade.”

Em 1946, levados por Athié Jorge Cury, lendário político e dirigente esportivo do Santos Futebol Clube, Garito e Cabelo ficaram dois meses fazendo testes no time da Vila. Segundo ele, foram bem nos testes, mas não foram aproveitados porque o campeonato já estava em andamento. Em vez de insistir, eles preferiram voltar, o que Garito também lamenta hoje em dia.

“A gente faz umas coisas bobas na vida. Acho que eu era muito medroso. Se tivesse aguentado mais um pouco, quem sabe?”

Em 1947, Garito recebeu o convite para jogar no Rio Pardo Futebol Clube, na cidade quase homônima de São José do Rio Pardo. Fez com o time um contrato que na época chamavam de “amador marrom”, uma espécie de profissional ainda amador, mais um daqueles jeitinhos característicos da terra brasilis.

Em Rio Pardo, ficou cerca de três anos. Por lá conheceu a já falecida Marina Castilho Morais, que com ele viveu toda uma vida, mas com a qual se casou apenas em 1972.

NA FRANCANA
Depois de uma boa passagem pelo Riopardense, Garito foi convidado para vir a Franca. Quem o trouxe foi Hélio Palermo, ex-prefeito de Franca. “Eu cheguei de noite, no carro do Hélio Palermo. Vim eu, minha mulher e a filha mais velha, Virgília”, se recorda.

Na Francana, formou com seu irmão Cabelo e outros companheiros um elenco forte, que marcou época na história da Veterana. Mas, não ficou muito tempo.

“Os times naquela época mudavam muito, pelo menos os do interior, que não tinham muita estrutura. Os diretores precisavam sempre de gente nova para empolgar a torcida”, afirma Garito.

Em 1953, ele seguiu para São José do Rio Preto, onde jogou pelo América até 1954. “Foi onde mais ganhei dinheiro na minha vida. Mas não sei o que aconteceu e ele se foi rapidamente...”.

Naquele mesmo ano, transferiu-se para o Botafogo de Ribeirão Preto, o time que mais glórias lhe proporcionou e onde vivenciou a fase mais importante de sua carreira. No Botafogo, conquistou o que hoje seria a Série B do Campeonato Paulista. Lá experimentou o que todo jogador de clubes pequenos de sua época almejava: jogou contra os grandes times de São Paulo e contra os grandes ídolos do esporte na época.

“Joguei contra o São Paulo, Corinthians, Palmeiras e o Santos que em 1957 já tinha o Pelé. O cara era mesmo uma fera. Tinha habilidade, tinha o arranque do Ronaldo Fenômeno e ainda cabeceava de qualquer lugar da área”, se recorda Garito, que teve a honra de ter sofrido um gol do “rei”.

De volta a Franca em 1958, integrou o time da Veterana que quase subiu para a primeira divisão e, no final da temporada, deixou os gramados. Com o dinheiro que tinha economizado, investiu em um bar na rua Carlos de Vilhena e construiu duas casinhas de aluguel. E durante 20 anos foi tocando a vida de forma mais sossegada, sem sentir muito a falta dos campos, já que naquela época não havia muito glamour em ser jogador de futebol, nem mesmo qualquer indício de tietagem.

“Naquela época havia poucos torcedores. O estádio em Franca era o Nhô Chico, com arquibancada pequena, como é até hoje. Mulher, então, nem pensar que o pai ou marido deixava ir ao estádio”, se diverte Garito.

Segundo Garito, todos os seus momentos em campo foram muito bons, porque ele se dedicava totalmente ao jogo. “Eu sempre tive muita garra. Mesmo quando perdia, porque é impossível ganhar sempre, eu sabia que tinha dado o melhor de mim e por isso não me entristecia.”

Nem mesmo os “perus” que tomava o abalaram. “A cobrança dos dirigentes e torcedores antes era bem maior do que hoje. Quem perdia gol ou tomava um ‘peru’ era acusado de ‘vendido’ e às vezes era até demitido. Mas não tinha jeito, que goleiro nunca engoliu um peru?”

UM ‘MILIONÁRIO’
Garito hoje leva uma vida tranquila. Com saúde surpreendente para quem já chegou aos 90 anos, ele admite que hoje é “milionário” perto do que era quando garoto. Mas também admite que poderia estar bem melhor se tivesse usado o bom dinheiro que ganhou com mais sabedoria.

Ele diz que o grande problema era que os jogadores não tinham orientação e por isso acabavam pobres no final da carreira e da vida, fato que acontece ainda hoje com alguns “boleiros”.

“Eu ganhei muito bem enquanto joguei futebol e nunca fui para time grande. Se eu tivesse aplicado de forma inteligente hoje estaria muito bem de vida. Jogador fica pobre porque não investe bem seu dinheiro.”

Garito diz que ainda assiste aos jogos e torce pela Francana, apesar de achar que os jogadores de antigamente eram mais habilidosos do que os de hoje, inclusive os goleiros.