Heleno de Freitas foi o primeiro grande jogador de futebol brasileiro a se perfilar como bad boy, quando a expressão ainda não se aplicava aos atletas. Disseram seus admiradores que teria sido o craque da Copa de 1946, se a Segunda Guerra não a tivesse abortado. Há quem discorde, pois rompantes, encrencas e expulsões colecionados por ele já tinham feito estragos na carreira. E, o que pareceu determinante para os rumos que sua vida tomou depois de 1948, a saúde começara a entrar em rápido declínio, debilitada em decorrência de doença que contraíra e das drogas em que se viciara. Terminaria seus dias irreconhecível, aos 39 anos, no hospício de Barbacena, extremamente magro, semiparalítico, comendo o papel dos jornais que um dia haviam noticiado seus dias de glória. A cena é emblemática.
De histórico, Heleno foi um dos maiores centroavantes do futebol brasileiro e principal ídolo do Botafogo na primeira metade da década de 1940, com 209 gols contabilizados no período, além de outros 14 enquanto jogador da Seleção Brasileira. Nascido em família rica, bacharel em direito, belo, elegante e charmoso, tinha gênio irascível. Por causa dessa combinação de traços era chamado Gilda, nome da protagonista vivida por Rita Hayworth em filme homônimo que fazia sucesso à época. Para demonstrar a singularidade desta personagem havia sido cunhada pelos marqueteiros de então a frase “Nunca houve mulher como Gilda”. Heleno gostava da comparação que começou a ser feita: “Nunca houve jogador como Heleno”. Isso já definiria nas entrelinhas sua personalidade narcísica. Mas há outros elementos que pincelam esta faceta e são usados com delicadeza e oportunidade pelo diretor José Henrique Fonseca.
Quando, no início da história, Heleno grita a seus companheiros de time que deveriam “ ver ópera antes de entrar em jogo”, aparentemente quer despertar brios, pedindo-lhes paixão. O desenrolar da trama vai além, desvenda um sujeito em busca de cenário para suas grandiloquências.
Para contar no cinema esta história trágica, Fonseca recorreu a pesquisas no farto noticiário de jornais e revistas da época, andou por muitos lugares à procura de fotos, ouviu alguns torcedores já idosos mas ainda lúcidos, e bebeu na fonte da biografia Nunca houve um homem como Heleno, de Marcos Eduardo Neves. Também leu os comentários do escritor Gabriel Garcia Marquez, que vira Heleno jogar com a camisa do Atlético Barranquilla, o time colombiano onde, já muito desequilibrado mas ainda genial, mostrou que tinha sido aquinhoado com talento invulgar. Era 1950, ele havia se separado da mulher Sílvia, com quem tinha filho de um ano. Alguns meses depois, de volta ao Brasil, jogou a última partida como profissional pelo pequeno América do Rio, já com fortes indícios de loucura.
As cenas do filme não nos exibem história linear e muito menos constroem saga sobre futebol: elas são muito mais o relato de uma tragédia pessoal. Fonseca optou por idas e vindas do passado ao presente e vice-versa, o que nos permite constatar a extraordinária performance de Rodrigo Santoro no papel título. Vê-lo como o atleta arrogante na sua fase de sucesso e imediatamente depois como o paciente em tudo dependente do enfermeiro devotado, desperta renovado entusiasmo por sua arte. O mesmo não se pode dizer sobre Aline Moraes como a contida Sílvia.
A fotografia em preto e branco, um dos trunfos estéticos da produção, confere tom nostálgico preciso para o relato que se pretendeu fazer, além de resgatar imagens de um tempo que só restará na memória: o Rio de Janeiro dos anos 40, com seus hotéis de luxo e casas noturnas concentrados em Copacabana.
O débito do diretor para com o espectador fica por conta do excessivo cuidado com as sugestões que se tornam omissões. Só para citar um exemplo: o esforço de Rodrigo Santoro para perder 12 quilos durante as filmagens, e assim convencer como doente chegado à fase terminal, deveria ser recompensado com a explicitação do nome da moléstia. Quem se fiar apenas no filme jamais saberá que o mal que pode reduzir um homem a feixe de ossos e peles, além de torná-lo louco, se chama sífilis e tem origem sexual. Elipses que comprometem a compreensão podem prejudicar a obra de arte. À parte esses detalhes, Heleno é um filme maiúsculo, belo e triste, que engrandece o cinema brasileiro.
DIRETOR DE O HOMEM DO ANO
José Henrique Fonseca
José Henrique Fonseca tem 45 anos. É filho do escritor Rubem Fonseca e marido da atriz Cláudia Abreu, que no momento faz grande sucessso como a personagem Chayene, da novela Cheias de Charme. Com Cláudia tem quatro filhos. Começou a carreira como diretor de clipes e comerciais. Nos anos 90, com Lula Buarque de Hollanda, Cláudio Torres e Arthur Fontes, criou a Conspiração Filmes.
Formou-se em direito na Faculdade Cândido Mendes, mas escolheu o cinema e o audiovisual como trabalho.
Dirigiu com Paulo José uma aclamada série para a televisão, Agosto, exibida pela Globo. Depois produziu o episódio Cachorro! pertencente ao filme Traição (1998). Seu primeiro longa-metragem foi O Homem do Ano, de 2003, onde entregou a Murilo Benício o papel principal, o de um policial inspirado no romance de Patrícia Melo. Participou do Festival de Berlim em 2004 e recebeu o prêmio de melhor primeiro filme no Festival de São Francisco neste mesmo ano.
Em 2005 dirigiu e produziu em parceria com a HBO a série Mandrake, baseada nos contos escritos por seu pai, nos quais um advogado crimimalista vive o protagonista.
Indagado sobre a razão de fazer um filme sobre Heleno de Freitas respondeu: “É um personagem excelente, carismático, com uma vida cheia de drama. Já escutava falar dele quando eu era pequeno, era um ícone em Copacabana. Uma vida cheia de intensidade daria e deu um filme muito bom.”
Diferente do pai, José Henrique Fonseca não se escusa de falar com a imprensa, não se esconde de fotógrafos e gosta de expor suas opiniões sobre os trabalhos que realiza.
Serviço
Diretor: José Henrique Fonseca
Elenco: Rodrigo Santoro, Alinne Moraes, Othon Bastos, Herson Capri, Angie Cepeda, Erom Cordeiro, Orã Figueiredo, Henrique Juliano, Duda Ribeiro
Roteiro: José Henrique Fonseca, Felipe Bragança, Fernando Castets
Fotografia: Walter Carvalho
Duração: 116 min.
Gênero: Drama
Onde: nas locadoras