A ideia básica de aldeia se fecha em um espaço terrestre menor, que deixa pouca margem para a ação individual, ou mesmo, coletiva. Ainda assim, pensadores de todos os tempos têm mostrado preocupação em demonstrar toda gama de amplitude contida no conceito relacionado ao espaço em que uma pessoa vive.
No século XIX, o escritor russo Tolstói colocou na fala de um de seus personagens a frase: ‘Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia’. A máxima deixa bem claro que o mais importante na vida está por perto. De nada adianta sair pelo mundo à procura de bem-estar. Basta somente saber pensar, transformando a pequenez cotidiana em grandeza.
No início do século XX, o poeta Fernando Pessoa escreveu estes versos: ‘O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Mas o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia/ Pelo Tejo vai-se pelo Mundo em busca de fortuna/ Mas o rio da minha aldeia não faz pensar em nada/ Quem está ao pé dele está só ao pé dele’.
O duplo sentido impulsiona a imaginação. Quem está só ao pé do rio, perto dele, pode estar sozinho ao pé de si, mas não solitariamente. A solidão tende a ganhar contornos de imensidão quanto mais longe a pessoa estiver de si própria. De nada adianta buscar outro lugar, outra aldeia, se o indivíduo não estiver integrado em si mesmo.
Em meados do século XX, o professor canadense Herbert Marshall McLuhan escreveu Communication in the Global Village. De acordo com a obra, tempo e espaço se aproximariam, criando uma aldeia global. O mundo passou a ser um só. Eletronicamente, as fronteiras entre as pessoas deixaram de existir. A conexão digital deixa hoje tudo muito perto e... longe também.
O mundo virou uma aldeia global. As recentes mortes da dentista francana e seus dois filhos em Portugal foram noticiadas instantaneamente no Brasil. Fotografias da casa onde ocorreu a tragédia ilustraram a notícia no Comércio. Um detalhe chamou a atenção. As residências portuguesas não são separadas por muro. Muito menos há cercas elétricas protegendo a frente das propriedades. Isso demonstra a total segurança da população.
Apesar disso, parece que a vida não está muito boa para quem vive fora. A morte – desesperada para ela e inesperada para a família, mesmo com o anúncio antecipado pelo Facebook – da dentista comprova as assertivas dos três escritores que citei. Para eles, os efeitos da convivência na aldeia beneficiam a vivência de cada pessoa. Longe da terra natal, dinheiro e conforto podem não se aliar a bem-viver.
Exemplos não faltam. Não faz muito tempo, um jovem jogador de futebol teve seu passe vendido para equipe alemã. Mesmo ganhando muito, vivendo com a mulher e a filha, Breno, ex-zagueiro do São Paulo, segundo as autoridades alemãs, colocou fogo na casa em que morava naquele país. Não houve vítimas fatais, mas justiça o condenou à prisão. Como lá não se dribla a aplicação da lei, o atleta está preso.
Antônio Araújo
Articulista e professor - tonin.palavras@uol.com.br