Eu a conheço, a Poeta da Lua Nova, vestida de branco, que fala baixinho para ninguém. Só a vejo, ao longe, quando ronda o jardim, madrugada adentro, e suas palavras são como um suave mantra, um canto ao vento:
- A NOITE tem me acompanhado, com seus longos e espessos cabelos, cada vez mais longos sobre os meus olhos, sobre as lembranças passadas, sobre o meu futuro. A Noite não tem peso, mas densidade e cheiros, alguns distintos e outros mesclados. Eu não a conheço, eu a adivinho. Sua aproximação paulatina, contínua, é tão diferente, a cada vez, que talvez ela seja plural, como plural é o modo como me conheço hoje. De muitas noites, alegres e sofridas, pintei o rosto da Noite, rugoso, nobre e sábio.
- Meus cabelos já possuíram a tonalidade que adivinho nos seus, negros azulados. Noite após noite os meus foram branqueando, enquanto os dela azulam enegrecendo ainda mais. Não sei se tenho medo dela, hoje, mais ou menos medo do que já tive. Não sei se, envolvida na floresta dos seus fios, quedarei inconsciente ou se padecendo em dores.
- Ao alvorecer, ela esfuma seus longos cabelos negros azulados, despedindo-se de mim, e respiro fundo quando o azul celeste clareia, as nuvens róseas passeiam no céu a me lembrar as duas meninas de Renoir, e sinto a promessa da vida, estou de mãos dadas comigo. Em outro extremo, o laranja-avermelhado do poente saúda a sua misteriosa entrada, negra azulada, e expiro forte quando ela desveste seu manto de Iansã, e sinto a minha solidão, doce ou amarga, e anseio por uma mão amiga. A Noite separa a minha vida em respiro de nascimento (luz) e expiro de morte (sombras). Luz, o fim do seu reinado, e sombras, o início de sua soberana presença.
- De mãos dadas com a Noite, mesmo à luz do dia, entrarei talvez de modo súbito em outra dimensão, dormirei profundamente o sono sem nuvens róseas e azuis, ou mantos alaranjados e vermelhos. Irei com ela, nossos cabelos mesclados, dançando ao vento, livres, leves e soltos, negros azulados...
Acho que fiz algum ruído, pois a Poeta voltou seu rosto pálido em minha direção, e seus olhos...me atravessaram, líquidos, inertes, fitaram fixamente o Nada. Chorei, mansinho, a Noite da Poeta, os seus cabelos desgrenhados, chorei pelo lindo e terrível negro azulado, que ela me lembra e adivinha. Triste, sem o seu olhar, vejo com os meus olhos a tenda negra-azulada armada e por desarmar.
No olhar da Poeta há, sobretudo, força na tristeza.