10 de julho de 2026

Eleição em Rifaina é batalha campal; entenda a estratégia


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Cerca de 560 casas já ostentam bandeiras: moradores brincam que ruas têm mais sombra de bandeiras que de árvores

O tempo corre rápido. A 50 dias das eleições, Rifaina está dividida. Como numa partida de futebol, os eleitores formam duas torcidas, não exatamente equilibradas. De um lado, bandeiras vermelhas. majoritárias, estampam o número 14 do PTB e dominam as casas. De outro, adesivos nos carros e banners divulgam o 45 do PSDB. Estão em menor número, mas fazem barulho. Carros de som tocando jingles das campanhas circulam o dia inteiro. Como em tempos de Copa do Mundo, a cidade de pouco mais de 3.400 habitantes respira política como se fosse futebol. O assunto que é um só: Abrão ou Danilo? Quem será o futuro prefeito?

O combate coloca em campo lados opostos. Abrão Bisco Filho (PTB), atual vice-prefeito, se orgulha de ter “nascido e vivido” em Rifaina. O francano Danilo Alves (PSDB) é quase um estrangeiro e seu maior adversário, o prefeito Hugo Lourenço (PMDB), é avó de seus dois filhos.

Cheios de raça, os dois times estão em campo. Basta se aproximar da cidade para ver que a campanha já ganhou a rua. As casas ostentam bandeiras vermelhas em bambus longos que ultrapassam os telhados. Rifaina é um império vermelho. Um grupo de 30 pessoas fez um arrastão para fixar as bandeiras. O mutirão não parou. Até o fim da campanha, Abrão pretende pendurar 650 bandeiras. 560 já tremulavam sobre a cidade. A rua Nove de Julho, com 1,2 quilômetro, tem ao menos 25 unidades.

“Aqui tem mais sombra de bandeira do que de árvore”, brincou o caseiro Eurípedes Goulart, 68, que vota em Abrão e pendurou uma bandeira na casa onde mora. Eurípedes diz que escolheu Abrão porque quer continuidade. “Tem que ser o Abrão mesmo, para dar segmento (...) Tenho 68 anos de Rifaina e em matéria de prefeito, não teve um igual a ele (Hugo).”

Sobre a polarização da disputa, Eurípedes confirma peculiaridades das relações político-morador em cidades pequenas e que Rifaina não foge à “regra”. Qualquer desagrado com pequenos favores provoca efeito imediato: a perda do voto. “Tem gente que não apoia o Abrão e o Hugo porque está acostumada com prefeito pagando água, luz, mas com o Hugo não tem isso não.”

DOMÍNIO
A intenção de Abrão com a coleção de bandeiras é clara: marcar território. “As bandeiras divulgam mais, de longe se vê, nem precisa entrar na cidade. E o adversário encara de forma diferente a casa com bandeira.”

O principal adversário dele, Danilo, preferiu adesivar carros com fotos suas e da vice, Cilene Devos (PSB), fazendo sinal de positivo ao lado do número 45. Já foram mais de 150 adesivados. Encontrar um carro sem propaganda política em Rifaina é um desafio. Banners do candidato tucano se espalham pela cidade. Danilo garante que as bandeiras não o intimidam. “Não me amedronto de jeito nenhum.”

Na residência da dona de casa Jucileia Cavalheiro, 32, moram sete eleitores. A família emprestou um espaço na entrada, ao lado de um pé de mamão e outras árvores para fixar um banner com a foto de Danilo e Cilene. Para ajudar na divulgação, colocaram até um adereço a mais. Na base do improviso, um refletor de luz conectado à rede de energia da cozinha ilumina os candidatos sorridentes em frente à casa. “Aqui somos Danilo.”

O serviços gerais Leandro dos Reis, 25, é outro eleitor da torcida 45. Por iniciativa própria, colou um adesivo com as fotos de Danilo e Cilene na sua moto e todos os dias, sem falhar, circula por Rifaina com uma bandeira em punho com o número do candidato. “Morei em Franca e quando voltei para cá um amigo meu, que está apoiando o Danilo, me deu emprego. Então, pela amizade, decidi votar no 45.”

A professora Sandra de Alencar, 39, se mudou de São Paulo para Rifaina com o marido e o filho em fevereiro e percebeu uma campanha política bem diferente. “São Paulo é uma cidade grande e você não vê esse movimento da população. Lá você vota e não conhece em quem está votando, aqui não, os políticos vão na sua casa. Lá eu voto e ninguém pergunta em quem foi, aqui todos querem saber quem é meu candidato.” Sandra é outra moradora com bandeira de Abrão na porta de sua casa.

‘LEVOU CHAPÉU’
Embora três candidatos concorram às eleições para prefeito em Rifaina, a briga 14 x 45 monopoliza as atenções. O terceiro jogador, Gilmar do Chapéu (PDT), se esforça para entrar em campo. Sem material de divulgação e sem dinheiro, fica pra escanteio. “Meu poder aquisitivo não dá para medir com dos meus adversários. Um tem o poder da máquina pública e outro, como dizem, é milionário. Eu vou com a cara e a coragem.”

Moradores dizem que ele se candidatou a prefeito “de alegre”. Gilmar rebate. “Meu carro-chefe é acreditar em Deus e não desistir.”

Até 7 de outubro, quando 4.309 eleitores devem ir às urnas, as bandeiras vermelhas continuarão balançando, os carros adesivados circulando pelas ruas e os jingles, no ritmo de Eu quero tchu, eu quero tcha, de João Lucas & Marcelo, e Humilde residência, de Michel Teló, quebrando o silêncio na prainha, que reserva outra particularidade. Tem mais eleitores que moradores.