O CFM (Conselho Federal de Medicina) decidiu reabrir o processo contra os médicos Pedro Saad Farah e Carla Marchini Dias da Silva, acusados de negligência na morte de Priscilla Stefane Gola, de 19 anos, em 2010, no Hospital Regional de Franca. A reabertura do caso ocorreu a pedido da família da vítima, após o Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) ter arquivado os processos em 24 de janeiro do ano passado.
Farah e Carla já tinham sido condenados na Justiça comum, em novembro do ano passado, a um ano de detenção por homicídio culposo (sem intenção de matar), pena trocada depois pelo pagamento de uma indenização de R$ 13,6 mil cada um à família da vítima. Eles recorreram e aguardam julgamento.
Após a condenação, Farah entrou com uma queixa-crime contra a irmã da vítima por comentários feitos por ela nas redes sociais (leia mais em texto nesta página).
Inconformada com o arquivamento do caso no Cremesp, a família Gola recorreu ao CFM, última instância de ética médica, em janeiro deste ano. O processo foi reaberto em 27 de fevereiro no Cremesp e corre em segredo de Justiça.
A assessoria de imprensa do CFM disse que a instituição não se manifesta a respeito de processos em fase de tramitação, mas confirmou que o pedido da família foi julgado procedente e que o processo volta para o Cremesp. Carla vai responder por negligência e Farah, por negligência e imprudência. Eles podem ter até o registro médico cassado.
Segundo o delegado da regional do Cremesp de Franca, Ulisses Minicucci, o processo corre no Cremesp em São Paulo. Procurada, a assessoria de imprensa do órgão em São Paulo disse que não poderia dar informações por conta do segredo de Justiça.
A família da vítima também não quis falar sobre o caso. Segundo a advogada que defende os Gola, Kátia Maria Ranzani, o Cremesp não poderia ter arquivado o processo por falta de indícios de erro médico, já que havia uma sentença criminal condenando os médicos por esse motivo. Ainda segundo a advogada, agora é muito difícil que eles não sejam punidos. “A chance de eles serem absolvidos é quase zero. O CFM determinou que o Cremesp, que havia arquivado o caso indevidamente, instaure um processo administrativo disciplinar para punir os médicos”, disse a advogada.
A reportagem não conseguiu ouvir os médicos investigados.
ENTENDA O CASO
Priscila era portadora de deficiência intelectual e foi internada no Hospital Regional de Franca no dia 18 de março de 2010, para operar uma hérnia de hiato que causava vômitos e a impedia de se alimentar direito.
O cirurgião vascular Pedro Farah, ao tentar colocar um cateter em Priscila, teria perfurado seus pulmões, o que causou insuficiência respiratória e levou a jovem à morte. Já a médica de plantão Carla Marchini teria sido negligente na condução do caso.
Na época, a mãe de Priscila, Jucélia Arroyo Soares Facco, denunciou os médicos por negligência ao Cremesp e à polícia. A Comissão de Ética Médica do Hospital Regional de Franca concluiu que poderia ter havido erro médico, mas que não configurava infração ética. Essa foi a tese usada pelo Cremesp para não punir os médicos.
O advogado que representa o Hospital Regional, Dalmo Branquinho, negou que Farah e Carla tenham agido com negligência no atendimento. “Eles fizeram tudo o que estava ao alcance deles para salvar a vida desta menina. Ela foi atendida, foi medicada, mas seu estado de saúde era complicado e ela acabou falecendo.”