08 de julho de 2026

Gosto amargo na boca


| Tempo de leitura: 6 min

Carolina Neves Carrijo tinha 68 anos. Morava no Jardim Paulistano com seu marido Melchior, de 72 anos. 

Estavam em casa na tarde de domingo, dia 5. De repente, três indivíduos invadem a residência – que a Constituição Federal chama de reduto inviolável, último bastião do cidadão, que o País tem que vigiar, proteger, garantir – e anunciam: ‘passa o dinheiro, jóias, passa tudo!!!”.

O idosos se olham, apavorados. “Por que nós? O que foi que fizemos?” Ao lado deles, amedrontado, o cachorrinho de dona Carolina latia. Assustadíssima, pedia silêncio ao animal. Os ‘coisas ruins’ pressionavam. Um empurra Melchior ao quarto, onde o senhor se separaria de R$ 400 duramente reservados e poucas joias do casal, objetos de mais valor sentimental do que financeiro.

De repente, um tiro. Os bandidos correm. Melchior se dirige desesperadamente à cozinha, em busca da mulher. Ela está caída, sangrando. Desespera-se. Sua companheira de tantos anos, sofrendo, o olha. O que fazer?

A bala transfixou o seio de dona Carolina, passou pela barriga e parou na nádega. Foi socorrida. Resistiu. Contou: o cachorrinho não parava de latir. Decidiu-se por pegar o animal no colo. Abaixou-se. O assaltante disparou.

Dona Carolina recebeu cuidados médicos por uma semana, mas não suportou. Morreu dia 12. Vários suspeitos foram investigados pela Polícia Civil, mas, sem provas contundentes, foram liberados.

Ela, viva há duas semanas, agora está morta. Não morreu por causa natural, como é o destino do ser humano e como sua idade lhe permitia acreditar que seria Foi subtraída da vida pela violência, outra vítima do País indecente que, devagar, vamos nos tornando. Por ai, livre, anda o desclassificado que a abateu, convicto de que nada lhe acontecerá e de que a vida não vale mesmo nada, e que pode repetir o que fez.

Cobra-se insistentemente dos organismos de segurança a que se antecipem a crimes e criminosos. Não há como. Não são videntes. Cobra-se, também, a que pegando o bandido, mantenham-no longe da sociedade. Também não é assim. As leis – que todos nós, cidadãos de bem temos que cumprir e que a justiça tem que fazer valer a todos –, respeitadas certas condições, liberam, na maioria dos casos. O segredo da mudança que é preciso empreender, passa pela construção de leis melhores, mais duras, objetivas, sem brechas, que substituam o emaranhado legal que hoje privilegia o mal, em detrimento do bem.

Emoções à parte, está rigorosamente certa a leitora Letícia, que enviou à Editoria de Opinião do GCN meia dúzia de palavras sábias, contundentes, verdadeiras, forte chacoalhão em quem vota só porque é obrigado, sem preocupar-se com estragos que votos do tipo causam no seio de famílias como a de dona Carolina e senhor Melchior: “A justiça aplica apenas o que legisladores criam”.

Votar com adequação é o único caminho que nos resta contra a impunidade. Outro leitor, Ângelo Thomaz, músico, escreveu: “o bandido perdeu a piedade porque se sabe amparado...”. Em resultado, gente já descrente de que a situação mude, começa a gritar que é preciso reagir, ainda que à custa da própria vida... Se não aprendermos a votar, haverá mesmo essa guerra...

CHIACHIRI FILHO
Chiachiri, Filho, político (foi vice-prefeito de gestão de Maurício Sandoval Ribeiro), articulista (escreve crônicas apreciadíssimas no Nossas Letras deste Comércio), historiador (suas pesquisas sobre os primórdios da história francana lançaram luz definitiva sobre vários temas), diretor do Arquivo Histórico de Franca por anos até ser substituído ‘de repente’ por uma decisão política, não perdeu jamais seu bom humor e a acidez que caracteriza seu jeito de falar.

É difícil acreditar que Chiachiri é cego – contingência de doença congênita que, devagar, apagou sua visão. É dono de uma memória extraordinária. Depois do ‘breu’ que o atingiu, comprovando o que a ciência apregoa sobre humanos que perdem algum dos órgãos dos sentidos e compensam, Chiachiri tornou-se dono de uma memória poderosa. Cita livros, documentos, leis, fatos, de variadas épocas, com precisão. Acerca-se de softwares de leitura digital que lhe garantem informação diária. Metralha, no teclado de seu computador, também auxiliado por software especial, seus textos. E claro, integra redes de relacionamento locais que não permitem que ele – bom analista político – se afaste. Chiachiri foi personagem de Entrevista de Domingo deste Comércio, dia 12, ocasião em que recordou seu pai, José Chiachiri, fundador do Museu Histórico de Franca, e que, vivo fosse, estaria completando 100 anos (leia em http://www.gcn.net.br/jornal/index.php?codigo =180961).

Cumprimentei-o pela performance. Aproveitei, de novo, para reclamar, mais uma vez, sobre a secretária eletrônica que ‘atende’ seu telefone, capaz de enganar qualquer um que ainda não conheça a brincadeira que ele gravou como saudação. A voz dele soa em seu ouvido: “Olá” (pausa longa). “Como vai você?” (outra pausa longa). ‘E a família? (mais uma pausa longa). E você fica, de cá, respondendo(!) as perguntas, certo de que o gozador Chiachiri atendeu mesmo o telefone. Só depois é que percebe. Disse-me que, agora, que não enxerga mais, tem que brincar é com os sons, os tons de voz. Encerra gargalhando sua gargalhada marca registrada: ‘Eu me tornei a memória auricular da história!”. Chiachiri, Filho, é exemplar em sua superação diária.

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

 

"Acredito que não há uma pessoa nesta cidade que, ao ler o artigo do Luiz Neto a respeito do bárbaro crime que vitimou a senhora Carolina Neves Carrijo, fique sem o sentimento de revolta dentro de si. É realmente revoltante tanta crueldade. Luiz Neto está coberto de razão quanto ao endurecimento da lei penal. No entanto, a hipocrisia reina quando tal assunto é discutido. Parece que os políticos, aqueles que elaboram as leis e que são ajudados pelos mais renomados criminalistas do Brasil, não têm interesse em modificações tão almejadas pela população tão ameaçada. É tempo de mudanças fortes e precisas, defendo a pena de morte em alguns casos. Sei que a pena capital não resolverá definitivamente a violência reinante no país, no entanto, ajudará muito, pois o bandido pensará várias vezes antes de cometer barbaridades. Sei também que serei criticado por alguns expondo minha opinião a respeito, mas não me importo porque não sou hipócrita. O trágico acontecimento que tirou brutalmente a vida de uma senhora idosa, mãe , esposa e, quem sabe, avó, marcará para sempre a vida de seu marido e de seus filhos e demais familiares, a revolta jamais se apagará. Tal fato poderia ter acontecido com qualquer um de nós (inclusive com as autoridades constituídas), portanto, não podemos ficar mais sob o manto do esquecimento, ou seja, mais um crime que o tempo apagará até que venha outro e mais outro e mais outro e mais outro e assim por diante, indefinidamente. Meus sinceros pesares à família Carrijo, em especial ao senhor Melchior."
João Bittar Filho