08 de julho de 2026

Ninguém sabia de nada


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Em determinados momentos, acompanhar o julgamento do mensalão pode causar revolta e certa desconfiança em relação à justiça. Em função de tudo que já foi apurado, das imagens e gravações obtidas e do histórico político de nosso país, fica difícil ouvir indiferente os variados, irônicos e até provocativos argumentos utilizados pelas defesas dos vários réus que estão sendo julgados. No caso específico das pessoas que trabalhavam com Marcos Valério, apontado como um dos principais articuladores do esquema, é incrível como a falta de memória e a ingenuidade parecem brotar de algumas pessoas.

Agora, depois que toda a engrenagem veio abaixo, ninguém sabia de nada, ninguém se lembra de nada. Nem o sócio, o advogado ou as diretoras financeiras. Todo mundo está jogando a culpa em Marcos Valério, como se fosse possível que uma única pessoa conseguisse articular sozinha um esquema como esse.

Obviamente, essa observação não traz implícita nenhuma defesa de Marcos Valério, que parece ter uma imensa participação em tudo e ainda continua vivendo tranquilamente em sua mansão em Belo Horizonte.

O que se quer ressaltar é que a corrupção não está apenas nos meandros da política e das altas esferas. Ela permeia também todo o tecido social, passando pelas chamadas pessoas comuns. Fica difícil acreditar que as diretoras financeiras não desconfiassem dessas transações volumosas de dinheiro que passavam pelas agências de Marcos Valério, já que a elas cabia a responsabilidade pela administração desses fluxos. Também é difícil imaginar que alguém invista seu capital em um determinado negócio e o deixe totalmente nas mãos de seu sócio, assinando cheques de quantias bastante significativas sem qualquer tipo de questionamento, arriscando a empresa e até mesmo sua própria integridade moral, tudo porque se concentrava apenas no setor criativo da empresa.

O mesmo pode-se dizer do advogado da agência, que também não sabia de nada, intermediou empréstimos altíssimose foi para Portugal com Marcos Valério só para fazer ‘turismo remunerado’, como disse seu advogado, uma espécie de ‘almoço grátis’ oferecido pelo empresário, algo que todos os que navegam pelo mundo dos negócios sabe muito bem que não existe.

É claro que sempre existe o benefício da dúvida. Às vezes não percebemos coisas que estão bem debaixo de nossos narizes e só vamos descobrir que fomos traídos bem mais tarde, quando ‘Inês já é morta’. E como até o ex-presidente Lula também não sabia de nada do que seu braço direito, José Dirceu, fazia, então é até bastante plausível que esses réus mais comuns também afirmem que não sabiam de nada, não se lembram de nada e também não viram nada.

Como diria o Robin, parceiro do Batman, santa ingenuidade!