A definição do dicionário apresenta significado cristalino. Não deixa a mínima dúvida: estudante é a pessoa que estuda. Há uma segunda acepção: é o aluno ou aluna que frequenta um estabelecimento de instrução. Para enriquecer a dinâmica da língua, quem participa de um curso à distância também se encaixa na categoria estudantil. No entanto, a dicionarização costuma demorar. Ainda, de acordo com as definições, estudar é o ato de aplicar a inteligência para aprender e adquirir conhecimentos. Hoje em dia, pode-se contar nos dedos quem realmente estuda. Pouca gente faz da escola um local de aprendizagem. Parte dos alunos vai à escola por imposição da família. Quando falha na obrigação, o próprio sistema escolar se encarrega de obrigar.
O resultado da permissividade está estampado no comportamento animalesco de alunos dentro e fora da escola. Poucos aderem às regras de convivência humana. Tudo deve ser feito de acordo com a vontade do estudante. A transgressão de normas começa na família, passa pela escola e se alastra por toda parte. Já virou rotina anual, em todo agosto, um bando de adolescentes invadir a praça Nossa Senhora da Conceição para ‘bebemorar’ o Dia do Estudante. Aliás, não só beber. Fumar e cheirar, também. Claro, se o dia 11 cai num domingo ou sábado como neste ano, a bagunça ganha antecipação. O que esses ‘festivos’ estudantes querem mesmo, é matar aulas.
Estudante que busca a praça central para comemorar seu dia costuma ser aquele pouco afeito aos estudos. Os alunos ou alunas interessados de verdade em aprender não perdem tempo com essas pretensas comemorações. Esses permanecem nas salas de aula. Aqueles que foram à praça tinham como meta apenas fazer aquilo proibido até por lei. Como bem reportou este Comércio no sábado, um dos menores flagrados com bebida alcoólica alegou do alto de sua sabedoria de vida: “beber é natural da pessoa”. Uma adolescente de 15 anos, bêbada, disse em tom de deboche que só bebia suco. A farra começou antes da aglomeração final no Centro. Por volta das 9 horas, um carro com quatro estudantes parou em um semáforo. Uma jovem estava no volante. Os passageiros empunhavam latinhas de cerveja, divertindo-se com tudo e todos.
Nesse mesmo momento, um pedestre parou na calçada para suspender o bermudão e ajeitar uma parte do corpo, ao lado do carro estudantil. O passageiro do banco da frente bebericava. Após alguns goles, enquanto o carro saia cantando pneus, o acompanhante da motorista gritou: “Ô derivado de petróleo! Tira a mão do p... Vagabundo”!
Além da gratuita agressão verbal a um desconhecido, o pseudoestudante ainda praticou discriminação racial. Na certa, continuou a mexer com todo mundo pelo trajeto restante. De resto, a fonte luminosa só não virou piscina pública neste ano, porque o policiamento estava a postos. Atitudes animalescas foram controladas a tempo.
Antônio Araújo
Articulista e professor – tonin.palavras@uol.com.br