16 de março de 2026

Reencontro com Vieira


| Tempo de leitura: 5 min
Há muito mais desencontros que encontros, choro que riso, dor que prazer. Há também o que não se explica, justifica nem se entende

“Fata viam invenient”
(O destino encontra seus caminhos e meios)
Antônio Vieira,
padre luso-brasileiro


Quando criança, tive o privilégio de crescer numa casa onde se lia muito. Meus pais, invariavelmente, estavam sempre com algum livro, revista ou, obviamente, jornal, nas mãos. Minha mãe lia muito mais livros que meu pai, mas até que ele se defendia bem. Três autores, especialmente, ele gostava de citar com propriedade. Cícero, o grande orador da Roma antiga, de quem sabia trechos inteiros de seus célebres discursos; Camões, o sonetista português de Os Lusíadas, cujos versos declamava até chorar; e Padre Vieira, o religioso luso brasileiro que foi um dos pensadores mais importantes do século XVII. Boa parte de seus sermões papai também conhecia de cor.

Nesta época, quando tinha meus nove ou dez anos, nada disso parecia sedutor. Cícero não entendia, Camões achava chato e o Padre Vieira e seus sermões simplesmente não me interessavam. Pouco tempo depois, voltaria a topar com os três autores no final do primeiro grau na Dinâmica Espiral, escola de toda minha vida aqui em Franca. Nesta fase, gostei muito de Cícero, mesmo porque me apaixonei pela história de Roma, obra e graça da professora Vera Irene. Camões achei mais chato ainda, quase intragável. E Vieira, de quem fomos obrigados a ler o Sermão aos Peixes (“Os peixes não falam, os peixes ouvem”) e o Sermão da Sexagésima, continuava não me dizendo coisa alguma. Li o que tinha que ler dele por obrigação.

Durante 25 anos, eu e Vieira não nos encontramos mais. A vida seguia assim até que, há uns dois meses, folheando o suplemento Nossas Letras, aqui do Comércio, topei com uma resenha sobre um livro de título esquisito, O Poder Erótico. É uma obra densa, que trata de uma pouco conhecida história de amor entre uma rainha e um padre. Não é ficção, mas sim um romance epistolar, baseado nas muitas cartas que trocaram entre si a monarca e o religioso. Ela era Cristina Vasa, rainha da Suécia. Ele, ninguém menos que o padre Antônio Vieira, meu velho conhecido. A autora, Gloria Kaiser, uma respeitada historiadora sueca.

Fiquei surpreso com o que a resenha antecipava, me lembrei de como meu pai gostava de Vieira e tratei de comprar logo um exemplar do romance. Foi certamente uma das melhores decisões que tomei na vida. É um livro transformador, que desvela uma história improvável, tão absurda quanto intensa, rica e, em certa medida, triste - mas, nem por isso, menos bonita. Li sem parar, praticamente de um fôlego só, absorto pela complexidade dos protagonistas e de seus medos, angústias, dilemas e dores.

Ambos os personagens são apaixonantes e resumir suas biografias é injustiçar o trabalho de Gloria Kaiser. O possível de dizer em poucas linhas é que Cristina Vasa, rainha da Suécia, era uma mulher muito complexa, que rompeu com todos os cânones e, ainda assim, foi aceita no círculo íntimo de distintos Papas em plena Roma do século XVII. Era uma mulher que dominava vários idiomas - inclusive português - e assuntos tão variados quanto filosofia, matemática e astronomia.

Vieira era um português que se mudou criança para o Brasil, onde ingressou na vida religiosa. Pregador brilhante, seus sermões, num tempo em que a impressão era primitiva e as distâncias, vencidas em barcos a vela ou lombo de cavalo, ganharam a Europa, onde ele passou a ser respeitado pelo vigor e clareza com que expunha seu pensamento - e defendia suas idéias. Uma das mais ousadas é justamente o “poder erótico” que dá nome ao livro. Vieira dizia que, diferente do que muitos defendiam, especialmente seus colegas de batina, o erotismo simplesmente não pode ser negado, camuflado ou aniquilado, porque é inerente à condição humana. Quem nada sente é porque não vive mais, sintetizava Vieira há mais de 300 anos. O que dá para ser feito é controlar - e transformar - esse erotismo em trabalho, em oração, numa outra coisa qualquer. Mas destruir, jamais.

Apesar de gênio, Vieira estava muito longe de ser unanimidade e, por conta de sua posição contra a escravidão, a exploração dos índios e a estrutura colonial do Brasil, acabou punido pelo Santo Ofício (a maldita Inquisição). Foi cumprir sua pena - ficar sem falar e pregar - em Roma, onde conheceu Vasa, que já tinha adoração por seus textos. Ambos se apaixonaram, sofreram, e mantiveram uma intensa - e não consumada - relação por seis anos. O que viveram, registrado em pungentes cartas e detalhadas anotações em diários, os marcaria para sempre.

Depois de terminar O Poder Erótico, mergulhei nos sermões de Antônio Vieira. Diferente da minha infância e adolescência, hoje seus escritos muito me interessam. Ando lendo suas pregações e me surpreendo, a cada página, com a modernidade e ousadia de seu pensamento, expressas com clareza e coragem desconcertantes num mundo tão conservador como aquele em que viveu. Tornei-me fã de Vieira, tanto quanto de Cícero. Já até pedi desculpas retroativas ao meu pai, em pensamento, porque devia ter prestado mais atenção ao interesse que ele nutria por ambos. Teriam sido ótimas conversas. Quanto a Camões, sigo sem gostar. Talvez precise de mais tempo.

Histórias como as de Vasa e Vieira estão aí para reforçar em nós a certeza de que a vida é um grande mistério. Ninguém sabe como nem porque, mas há muito mais desencontros que encontros, choro que riso, dor que prazer. Há também o que não se explica, não se justifica nem se entende. Acontece, simplesmente. Para uns, pode ser a sorte e o azar. Outros chamam de coincidências. Há quem veja o destino nisso tudo, uma sequência de eventos cujo resultado, independente de força ou vontade, está predefinido, à sua espera, e não há muito que se possa fazer. No máximo, tentar aceitar. Como diria o padre Vieira, “fata viam invenient”. O destino encontra seus caminhos e meios.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br