08 de julho de 2026

Pais? Esses ou aqueles?


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Levei, na vida, só duas sovas de meus pais. Ambas, merecidas. Corrigiram-me o rumo, quando eu, ainda jovenzinho, fase do posso tudo, sai do (bom) rumo.

A primeira, foi de meu pai, um homem doce, calmo, equilibrado, meu ídolo e amigo de todas as horas, capaz de me advinhar mínimos problemas e, aconselhar soluções na hora e nos momentos certos. Certo dia, ele me olhou de lado e, inacreditavelmente para mim, lançou-se mão em riste e brindou-me com o mais inesquecível dos puxões de orelhas, rosto crispado, quase apoplético ‘meramente’ porque eu tinha desancado com minha mãe, elevando a voz contra uma ordem sua. “Mulher alguma você há de desrespeitar, ou agredir, ou tratar mal, em qualquer tempo de sua vida”. Era um cavalheiro, papai. E sábio.

O segundo tranco foi de minha mãe. Meu respeito por ela foi sempre uma tônica. Nunca foi de meias palavras. Decidia e a gente cumpria, eu e papai. Ela me pegou de jeito quando, fazendo folia em seu salão de beleza, eu me divertia soprando canudinhos de papel na cabeça de algumas de suas clientes. Era o tempo dos cabelos femininos armados – dizia-se que as senhoras colocavam bom-bril por dentro dos penteados para deixá-los imensos – e, depois borrifava-se muito laquê, para manter tudo como um bolo. Ela já tinha ralhado comigo uma, duas, três vezes. Eu tinha elegido uma de suas clientes e ela já havia recomposto o cabelo dela algums vezes. Perdi a noção do perigo e, mirando bem, enfiei mais um canudinho no cabelo da moça, que, possessa, gritou comigo. Olhei para minha mãe. Bravíssima, saiu em meu encalço.

Ao virar o corpo para correr, bati em um imenso vidro de laquê, que espatifou-se no chão, cacos de vidro para todos os lados. Tomei o rumo da casa da mãe dela, minha avó, dona Sinhana. Mamãe foi atrás, bufando. Recordo-me das merecidas palmadas e do tempo em que ela ficou sem falar comigo. Minha reaproximação foi intermediada por papai.

Soube, então, que mamãe teve um tremendo trabalho para encontrar mais laquê e atender quem estava em seu salão naquele dia. E soube, também, que ela perdeu clientes por minha causa. Aprendi, com tudo aquilo. Brincadeiras têm que ter limites. E gente, conhecida ou não, tem que ser respeitada.

Tornei-me cerimonialista, um sujeito que se dedica a fazer as pessoas se sentirem bem, respeitadas, mesmo que estejam em terras estranhas. Papai e mamãe, diferentes de papais e mamães de hoje, tinham compromisso comigo. Tornei-me quase eles. Tive uns pegas com meus dois filhos, arrependi-me, mas eles, mais tarde, me disseram que aceitaram, porque mereceram.

Formar homens e mulheres de caráter nunca foi fácil. Hoje, aliás, é mais difícil ainda. Meu amigo advogado e Secretário de Ação Social do município, Roberto Nunes Rocha, com quem estive ontem, sempre me contesta quando falo que uma tapinhas carinhosos geram responsabilidade e garantem amor de pais e mães que se preocupam com seus filhos. Ele contesta por força das leis de hoje, essas que, por dever de ofício, tem que aceitar e fazer cumprir, mas garanto que, também ele, deve se lembrar, com saudade, das ‘carícias responsáveis’ com as quais deve ter sido contemplado seus pais, os professores Pedrinho Nunes Rocha e dona Branca. Tenho saudade daquele mundo diferente e carinhoso. No de hoje, as travessuras ficaram muito pesadas, regadas a drogas, sexo, ausência de compromisso, respeito por quem que seja. Reverencio pais e mães de verdade. Amanhã, não é dia só de quem só gera. É dia de quem, apesar das dificuldades, cuida, conduz, forma, torna responsável.

EM PLENA PRAÇA
Fiquei pasmado ouvindo jovens que mataram aulas ontem e, na praça central comemoraram o que chamam de “dia do estudante’. Repórteres do GCN estiveram lá, e, gravadores em riste, documentaram vozes pastosas de garotas e garotos que consumiram álcool e drogas em praça pública. A polícia também foi, mas não saiu enquadrando todo mundo porque as leis garantem o tal do direito de ir e vir de vadios e também de jovens que se degradam sem lenço e sem documento. O que é incrível, é que os jovens pareciam felizes. Não há dúvida. Faltam pais e mães como os que eu e Roberto Nunes Rocha tivemos. A matéria sobre a ‘comemoração’(?)’, está nas páginas do Comércio de hoje. Surpreenda-se, lendo. A matéria sonora, apresentada pela rádio Difusora, vou guardar. Trata-se de documento nú e crú do niilismo que caracteriza a juventude deste nosso tempo de permissividade absoluta e absurda, ao agasalho da lei.

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br