Até a hierarquia parece coisa do passado.
Ordens de mãe ou pai era lei, e as obedecíamos sem nenhuma contestação. Saindo de casa e indo à escola, dentro de uma sala de aula, o que o professor dissesse era para ser cumprido à risca, mesmo que a orientação nos deixasse encabulados. Não me lembro de ter discutido com professor algum devido a uma ordem ou orientação torta de sua parte. O mesmo se dava com os diretores de escola e até os inspetores de alunos. Época do tiro-de-guerra, então, nem se fala!
Se fôssemos a um cinema e colocássemos os pés sobre as costas da poltrona da frente, bastava vir o lanterninha e acender um facho de luz sobre nossos sapatos. Pronto: imediatamente nos colocávamos em postura decente. Sentar no encosto dos bancos das praças, nem pensar!
As pessoas responsáveis pelos clubes, escolas, bares, hospitais e até mesmo aquelas que tomavam conta do jardim tinham certa voz de comando à qual todos obedeciam, crianças, adolescentes e mesmo adultos.
Grama não era para ser pisada, cachorro não era para ser chutado, idoso não era motivo de piada, calçada não era para ser escarrada, semáforo era para ser respeitado, setas de automóvel eram para ser usadas na conversão à direita ou à esquerda, missas eram para ser assistidas em silêncio e respeito, casamento era para durar, a liberdade dos outros era para ser respeitada, as datas cívicas eram honradas; quando os outros falavam, se falavam eram para ser escutados; o rádio ou a TV de casa ia até um volume que não incomodava o vizinho, vidraça não era para ser quebrada, paredes não eram para ser pichadas, pena era para ser cumprida, infração era para ser penalizada... Parece ingenuidade, mas as coisas eram exatamente assim, e todos se mostravam felizes e seguros.
Não sei dizer se esse nosso comportamento era certo ou errado. Sei apenas que aconteceu, que era verdade nossa obediência ao guarda, ao padre, aos pais, aos professores, aos responsáveis pelas instituições estabelecidas.
Também não sei dizer ou precisar exatamente quando foi que aconteceu a ruptura. Apenas pude perceber que num determinado momento, o pai deixou de ser o pai para ser amigo do filho. A mãe deixou de ser mãe para dar lugar à função de confidente dos filhos. De forma que a hierarquia e a obediência em casa deixaram de existir, para dar lugar a uma organização unilateral: pais e filhos na mesma condição. De “senhor” passou-se a tratar o pai por “você”; de “senhora” para a mãe, demos lugar também ao vago “você”. Assim, a criança vai para a escola e dirige-se não mais à professora, mas sim à tia, amiga do peito, do cotidiano. Amigo é mano, e mano é, na maior parte das vezes, pejorativo.
Quando esses aprendizes enfrentam algum professor no ensino médio ou mesmo na universidade que ainda traz consigo certa forma firme de comandar sua aula, o aluno se diz agredido. Se uma autoridade escolar entra em uma sala de aula e passa uma determinada diretriz ou ordem, há uma revolta coletiva entre os alunos.
Há uma charge correndo na internet – o antes e o agora. No quadrinho do “antes”, o aluno chega à sua casa e mostra notas baixas no boletim aos seus pais. Estes repreendem severamente o filho e exigem que a notas melhorem. Ou seja, a responsabilidade é do aluno, da criança, do filho. No quadrinho seguinte, sob o título de “hoje”, os pais, ao lado do filho, com o boletim nas mãos mostrando notas muito baixas, repreendem severamente a professora: ‘Onde já se viu? Isto são notas que se deem? Isto é preconceito. Vamos falar já à diretora!” E sabem o que geralmente vem acontecendo? A diretora dá razão aos pais é mais cômodo sacrificar o professor que aborrecer alunos e seus familiares. Incrível, não? Mas é a verdade!
Ter nivelado o relacionamento em casa não foi totalmente um erro. Mas não ter ensinado às crianças que na sociedade ainda existem (e devem existir) regras de comportamento, e elas estão ali para ser obedecidas, isto sim, foi um erro fenomenal.
Estamos perdendo o sentido do respeito e do acato às pessoas que estão acima de nós, nas instituições; evaporou-se o respeito aos colegas, aos subordinados, ao próximo em geral. E este procedimento, aos poucos, vem se incorporando à nossa cultura. É lamentável, porque em se perdendo o respeito não há mais como controlar os nossos instintos mais primários. É um retrocesso e, em alguns casos, a retomada da barbárie.