(Num ponto de ônibus da Av. Dr. Ismael Alonso Y Alonso)
Avenida marginal.
Eu, sempre na marginal.
Eu à espera do ônibus.
Sempre à espera.
Tenho dores
físicas, morais, espirituais.
Testa franzida, expressão fria.
Tão fria como a estátua
do doutor Alonso y Alonso
parada bem ali, na minha frente.
Alguns dos que passam olham-me.
Ignoram-me tantos outros.
Penso num motivo para estar bem;
busco com esforço uma alegria que seja.
Fecho os olhos, apuro os ouvidos:
maltratam-me os muitos ruídos da marginal.
Carros, motos, caminhões, bicicletas, transeuntes.
E eu à margem,
como à espera de um sinal,
atento a um possível chamamento.
Venha de onde vier.
O vento outonal arranca folhas débeis
das árvores vizinhas à estátua.
Lembranças do meu amor
arrancam-me suspiros inaudíveis.
Longa, constante marginal.
Passo a mão pelo rosto e percebo
que a barba cresce descuidada.
A saudade... cresce atrevida.
Longa, constante saudade
ornada de recordações.
Saudade úmida do beijo de outrora,
molhada do pranto de hoje.