07 de julho de 2026

Imagem e imaginação


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A informatização de dados trouxe enormes facilidades para a civilização moderna. Antes da Internet, o texto escrito ganhava veiculação e armazenamento apenas através do papel. Já a voz dispunha de mecanismos próprios de propagação. Noutra visão, a imagem era levada ao público por meio do papel ou de quadros e esculturas.

Com o tempo, foi possível propagar e ‘arquivar’ a voz. A imagem também ganhou novas fontes de propagação e preservação. A tecnologia atual possibilitou a agregação do livro, do jornal, da revista, do rádio, do disco, do cinema, da televisão e até do serviço postal em uma única fonte.

Hoje tudo está na Internet. No entanto, nem sempre de forma formativa, que aguce a busca produtiva e capaz de forçar a imaginação do internauta. Uma prova disso está na tradução da letra de uma música qualquer. Antigamente, quem ouvia uma canção em inglês, se não fosse versado nessa língua, tinha que pesquisar muito para saber o significado dos versos.

Agora está fácil até demais. Basta acessar a Internet. Num simples clique de procura, aparecem várias opções. A tradução de uma letra vem por meio do texto em português, acompanhado do original. Há ainda a possibilidade de se ouvir a música, ver as imagens da apresentação do cantor e acompanhar ao mesmo tempo a legenda dos versos cantados.

Até aí a imaginação agradece. Pois neste tipo de apresentação, o internauta ainda consegue criar imagens de acordo com a sua vontade própria, porém estimuladas pelo texto da letra e até das notas musicais.

A pobreza de imaginação se instala de vez, quando o internauta opta por conhecer a tradução por meio de um audiovisual. Nesta modalidade de apresentação, o som da música vem acompanhado de uma imagem ilustrativa, que serve de pano de fundo para as palavras traduzidas. Isso priva o ouvinte de criar um cenário para o que ouve. Pior ainda é quando se usa uma música estrangeira para ilustrar um texto de autoajuda. A letra já tem sua própria mensagem. As imagens editadas focam outro assunto, servindo para levantar o ânimo dos desiludidos. Tudo vira uma salada mental, que não permite a criação particular de quem assiste.

Corre na Internet um vídeo com essa particularidade. A música de fundo é a inspiradíssima If (‘se’), interpretada pelo conjunto Bread. Quem vê a otimista produção sobre os efeitos da comunicação educacional, imagina que o texto esteja relacionado à canção. A letra em si já diz tudo sobre a interação humana: “Se um quadro vale por mil palavras/ Então por que eu não posso dize-las a você”. Mais para a frente, outros versos reforçam a ideia do poder da palavra em criar imagens em que lê ou ouve.

Para quem conhece a tradução, a mensagem da música supera e longe a do texto de autoajuda. Pena que as pessoas andam optando pelas ideias prontas. Pouca gente ativa a imaginação para criar imagens. Muito menos busca isso na leitura ou na audição pura e simples, sem auxílio de ilustração extra.

Antônio Araújo
Articulista e professor tonin.palavras@uol.com.br