08 de julho de 2026

Mensalão


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A vida é mesmo um grande teatro. A longevidade do talento de Shakespeare é um bom exemplo dessa intrínseca relação. Expressões como ‘ser ou não ser, eis a questão’ e ‘há algo de podre no reino da Dinamarca’, entre várias outras, atravessaram séculos nos fazendo pensar a arte da vida por meio da ‘realidade’ vivenciada nos palcos. Segundo o dramaturgo inglês, homens e mulheres seriam meros atores no desempenho de seus papéis, entrando e saindo de cena durante a vida.

O importante julgamento do mensalão que o país começou a assistir nas últimas quinta e sexta-feiras talvez nos permita essa inferência. Se analisarmos todo o processo, desde seu início, vamos perceber que para a maioria dos brasileiros não há dúvidas sobre o fato. Para comprovar a apontada compra de deputados, a corrupção e o desvio de dinheiro público para financiamento de campanhas e para bolsos privados, que, diga-se de passagem, não foi uma criação desses senhores que hoje se sentam no banco dos réus, já se apresentaram imagens e sonoras.

Mas o fato, só existe por meio da interpretação de quem o relata. Por mais que isso doa na alma dos mais pragmáticos, essa é a realidade do mundo democrático. Por mais óbvias que pareçam as provas, elas também são passíveis de interpretações diferentes. Cabe então aos homens confrontarem os vários relatos que contornam o fato antes de tomarem qualquer decisão.

E aí começa o grande teatro. Juízes, advogados, procuradores e outros envolvidos assumem seus papéis no palco do Supremo Tribunal Federal (STJ). Vestem-se com figurinos que aumentam a galhardia de suas funções e posicionam-se em pontos previamente demarcados, como se houvesse um diretor responsável pela encenação, ávido por criar um impacto simbólico junto à plateia que se dispõe ao espetáculo.

Os textos são criticamente elaborados. As palavras são minuciosamente estudadas e medidas. Os discursos se alongam até a exaustão e o que parecia óbvio vai ganhando as cores mais fortes de um ato simbólico que, gostemos ou não, é essencial à vida democrática, uma vez que esse todo esse teatro, essa calculada encenação, a despeito de suas falhas e de seus retrocessos, no fundo está substituindo a força bruta, as guerras e os despotismo que durante séculos mediaram os conflitos vivenciados na prática cotidiana dos homens.

Por esse razão, é importante que todos os brasileiros acompanhem atentamente o desenrolar do julgamento. Por seu simbolismo político, independentemente do fato, ele poderá ser um marco importante em nossa história, um passo a mais em direção a uma sociedade menos corrupta, mais justa e equilibrada.