Jotabê Medeiros - Jornalista e Crítico Literário
Cerca de 110 anos antes de Hogwarts (o colégio interno dos magos mirins de JK Rowling), um outro colégio interno da literatura colocou à prova o talento, a sagacidade e, principalmente, o instinto de sobrevivência de seus alunos: O Ateneu, de Raul Pompeia.
Romance proustiano de naturalismo crítico, O Ateneu é uma obra-prima da literatura nacional. Segundo Camil Capaz, que foi biógrafo de Pompeia (1863- 1895), trata-se de um ‘romance da reclusão que as famílias ricas do fim do Império impunham a seus filhos, no intuito de temperá-los para os desafios da vida adulta’. Ao assumir a tarefa de desenhar O Ateneu para a série Clássicos Brasileiros em HQ, da Editora Ática, o quadrinista Marcello Quintanilha produziu outra obra-prima.
O violento rito de passagem do menino Sérgio pelo Ateneu (uma espécie de potentado do tirânico diretor Aristarco Argolo de Ramos, de alma inquisitorial), emparelha-se com alguns dos melhores relatos dessa fase da vida masculina - incluindo aí o filmaço Conta Comigo (Stand by Me), de Rob Reiner. Criado em berço esplêndido, com sobras de afeto de pai e mãe, Sérgio subitamente é arrancado de seu conforto e enviado para o lugar em que deverá tornar-se um ‘homem de fibra’, numa espécie de viveiro de pequenos fascismos.
‘O mestre é o prolongamento do amor paterno, é o complemento da ternura das mães, o guia zeloso dos primeiros passos’, diz o discurso. Antimilitarista, republicano, abolicionista, libertário: isso é o que se esconde sob as páginas, o espírito do livro de Raul Pompeia (que foi execrado em sua época, e combatido por seu temperamento rebelde, acabando por suicidar-se na noite do Natal de 1895, aos 32 anos de idade).
Quintanilha examina com ternura e atenção cada pequeno personagem de O Ateneu, dando especialmente às mulheres um papel de coadjuvante de destaque - sua atuação é como um arbítrio superior, distanciado. Os quadrinhos são miúdos, talvez demais para a variedade de detalhes. Os meninos do Ateneu dão vida a um Rio de Janeiro emergente, com seus passeios ao Jardim Botânico, ao Morro Dois Irmãos, ao Corcovado.
Quintanilha conta, nas notas minuciosas da edição (que incluem os estudos da adaptação), que pretendeu, com seu trabalho em nanquim sobre superfície de papel porosa, acentuar a atmosfera difusa e onírica do relato de Pompeia e ‘tornar toda a massa de alunos do Ateneu e o próprio colégio em um único organismo, vivo, assustador, constituído quase da mesma matéria, plasmando, assim, aquilo que talvez seja o principal pilar do romance, o de uma verdade filtrada, assimilada, estratificada a partir dos olhos de Sérgio’.
O romance se passa em um momento crucial da história brasileira. O ano de sua publicação é o mesmo da abolição da escravatura, 1888. A princesa Isabel é personagem, no início da história, e também protagoniza uma pequena crise diplomática: um dos garotos, num ímpeto republicano, se recusa a beijar sua mão. Essa bipolaridade política se expressa em diversos momentos da narrativa. O herói, Sérgio, vê-se compelido a renegar a religião, que lhe é mostrada como se o Mal fosse fêmea.
Nascido em Niterói em 1971, o desenhista Marcello Quintanilha vive em Barcelona. Estreou nos quadrinhos em 1988, com histórias de terror e artes marciais publicadas pela Bloch. Lançou em 1999 o primeiro álbum, Fealdade de Fabiano Gorilla, ainda com o pseudônimo Marcello Gaú. Na Espanha, onde trabalha na série de HQ Sept Balles pour Oxford, da editora belga Éditions du Lombard, colabora com El País e La Vanguardia. Ocupou a página de quadrinhos do Caderno 2 do jornal O Estado de S.Paulo durante um período com um trabalho autoral. Em 2009, ganhou o Prêmio HQ Mix pelo álbum Sábado dos Meus Amores.
REALISMO E CRÍTICA
Raul Pompeia
Raul Pompeia nasceu em Angra do Reis, em 1863, filho de uma família de grandes proprietários rurais. Teve uma infância bastante reclusa. No começo da década de 1870, os Pompéia se mudaram para a Corte e o menino foi estudar no mais famoso colégio da época, o Colégio Abílio, onde permaneceu por cinco anos. Ao falar do protagonista Sérgio, de O Ateneu, no romance que criou polêmica em sua época, o escritor narrava suas próprias experiências.
Pompeia concluiu seus estudos no Colégio D. Pedro II e, mais tarde, bacharelou-se pela Faculdade de Direito do Recife. Abolicionista e republicano exaltado, era uma espécie de intelectual de esquerda em sua época. Ocupou vários cargos públicos, inclusive a direção da Biblioteca Nacional. O temperamento exaltado despertou ódios e inimizades. Chegou a marcar um duelo com Olavo Bilac, que acabou não se realizando. Esta sensibilidade doentia e não resolvida impeliu-o ao suicídio, num dia de Natal. Contava então trinta e dois anos de idade.
Ainda que tenha escrito poemas (Canções sem metro), uma novela (Uma tragédia no Amazonas), e deixado obras inéditas, Raul Pompéia permanece como autor do romance resenhado ao lado e considerado essencial em nossa literatura: O Ateneu, que traz um enganoso subtítulo: Crônica de saudades.
Talvez ficasse melhor Crônica do ressentimento.
Serviço
Título: O Ateneu
Autor: Raul Pompeia
Versão para quadrinhos: M. Quintanilha
Número de páginas: 95
Preço: R$ 28