08 de julho de 2026

A tremedeira da vida...


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Aconteceu uma espécie de clarão, no meu costumeiro entendimento, ao escutar esta expressão - “tremedeira da vida” - sobre as esculturas de Alberto Giacometti (1901-1966), famosas figuras finas em bronze, alongadas (mais de 200 obras em exposição até 16/09/12 no MAM, RJ). Suas esculturas se assemelham aos castelos de criança, na praia, ao deixar escorrer areia em fios. Giacometti, escultor suíço, produz o efeito de pingos de areia, com o gesso tornado bronze. Uma das minhas brincadeiras favoritas junto ao mar, esculpindo formas.

A aparência das suas esculturas é de efemeridade, e, no entanto, parece eternizada como se elas tivessem escapado de incêndios seculares, de sítios perdidos nos tempos primevos da nossa humanidade. Nas pinturas, Giacometti tangencia, principalmente a cabeça, com infinitos traços. A humana figura tremeluz, em traços irradiantes, concentrando um núcleo em relevo, pela repetição dos traços entrecruzados.

Tremedeira da vida me parece traduzir exata e ricamente a vitalidade das figuras, nos desenhos e quadros, já que, expressivamente, elas guardam movimento, mágica do gênio. Nos seus quadros são tantas as pátinas, os traços sobrepostos pelo artista a fazer nascer a figura, que, olhando de perto, a cabeça parece engolida por um buraco negro. Ao tomarmos distância, no entanto, vemos as cabeças das figuras flutuarem e adquirirem existência, característica. As cabeças levitam, destacam-se da tela, projetam-se no espaço! Giacometti, ao pintar o amigo filósofo, Sartre, riu, a uma dada altura, dizendo que a cabeça de Sartre estava tão compactada que tinha sido reduzida. Mas, aqui, o “reduzir” tem o sentido maior de significar, condensar, e não diminuir (como se diz reduzir, na gastronomia, querendo dizer engrossar um caldo ao fogo, para conseguir maior sabor e textura).

Nas suas esculturas, os braços, as pernas, os pés são como finos e longos pedestais para a cabeça. A cabeça esculpida também compacta sentidos. E fica pequenina perto do “corpo” fino e longo. Nesta inversão de proporções, a cabeça “pesa”, estruturalmente trabalhada em minúcias. Se vemos pequenina (em proporção) a cabeça, no entanto, nós a vemos realçada, como se ela resumisse tudo.

Quando viu pela última vez uma mulher que amou, e da qual se separou, o jovem Giacometti a viu de muito longe e a esculpiu guardando essa distância. Ele a reduziu, ele a condensou, penso eu, no tamanho e proporção como guardou a sua última lembrança dela: tão pequena a sua figura, assim distante, que poderia ser guardada em uma caixa de fósforos. Certa vez, após um trabalho com sua mulher Annette por duas horas, em que posou estática para ele, Giacometti sentou-se com ela à mesa e a olhou insistentemente. Annette Giacometti, sua modelo por vinte anos, incomodada, quis saber que olhar era aquele. Ele lhe respondeu: ainda não a havia visto até agora.

A vida, a vida mesmo, jamais é estática. Artista não fotografa a vida, a foto congela, imobiliza o instante. O artista, por diferentes meios, exprime, ou tenta exprimir, desesperadamente, a tremedeira arisca e inconstante, inefável, da vida.