Dois homens negros e simulando estar armados têm espalhado o terror nos comerciantes da avenida Abrahão Brickmann e suas imediações, no Leporace. As descrições dos crimes, dadas pelas vítimas à reportagem, são praticamente idênticas. Os ladrões chegam como clientes, ameaçam, exigem todo o dinheiro que está no caixa e mandam os comerciantes se trancarem no banheiro das lojas. Só em uma semana, foram três estabelecimentos atacados. Os lojistas dizem que pensam em fechar as portas. Na manhã de ontem, um homem foi preso e identificado como autor de quatro roubos em um bairro vizinho (leia texto nesta página).
Na segunda-feira, 25 de julho, a vendedora JR, 32, saiu de sua casa no Jardim Brasilândia por volta das 8 horas e preparava-se para abrir a tabacaria onde trabalha, na avenida. O movimento nem havia começado na pequena loja situada em uma das garagens do Leporace, quando um homem negro, aparentando ter 40 anos, começou a olhar os produtos. “Ele chegou e me pediu para vender um currículo. Eu falei que não tinha e ele logo disse que era um assalto. Pediu para que eu não olhasse no rosto dele, me trancou no banheiro e levou R$ 230. Eu senti muito medo, não temos sossego nem para trabalhar.”
A comerciante DACG, 53, dona de uma loja de aviamentos no começo da Abrahão Brickmann - no mesmo quarteirão do 5º Distrito Policial -, passou pelo mesmo drama no último sábado. Era por volta de 13 horas quando ela se distraia vendo a carreata de um candidato a prefeito que passava pelo local. A descontração acabou segundos depois. Dois homens chegaram em bicicletas e anunciaram o assalto. Um deles ficou na porta da loja, vigiando. “Eram negros, agora falar com que tipo de roupa eles estavam, o rosto, eu não consigo. O terror é muito grande, você pensa em continuar vivo, só isso. Como diz o ditado: vão-se os anéis e ficam os dedos”, disse a comerciante. Os bandidos levaram R$ 45 e dois celulares. “Dá vontade de parar. Eu vinha para cá toda feliz. Na segunda-feira, eu não tinha vontade de vir não.”
Três dias depois, no Leporace III, a dupla criminosa voltou a atacar uma loja de presentes. Desta vez, à noite. A comerciante VRS, 42, poderia ter escapado do assalto se tivesse fechado às 19 horas, como planejado. Não fechou. Minutos antes de abaixar as portas, os dois homens chegaram em bicicletas. “Eles disseram: ‘não mexe, não faz nada, não grita. Me dá todo o dinheiro’. Eu dei o que tinha na gaveta. Ele disse para eu não vir com moedinha, não. Minha filha entregou dois celulares. Ele mandou a gente ir para o banheiro.” Foram quinze minutos presas no cômodo, até se sentirem seguras para sair. “Valeu por uma eternidade. A gente ficou apavorada. Ele com a mão embaixo da camisa o tempo todo, mostrando que estava armado, e cada vez mais nervoso”, disse emocionada.
A Polícia Militar foi acionada em todas as ocasiões e realizou buscas pela região, em vão. Ninguém foi preso. Por isso, VRS conseguiu voltar a abrir sua loja apenas às 16 horas de ontem. “A insegurança é total. Eu só abri, porque vi que o comando da polícia, que estava em frente a um mercado. Por isso, vim trabalhar. Eu dependo daqui, preciso ganhar a vida, mas o medo é muito grande”.