As leis de mercado nem sempre são infalíveis. Pela lógica, quanto maior for a procura de um produto, mais o seu valor sobe durante a comercialização. Entretanto, o contrário costuma não acontecer. Muitas vezes, apesar do excesso de produção, uma mercadoria chega ao consumidor com o mesmo preço anterior. Somente o produtor não consegue vender pelo valor real.
A prova disso não está muito longe. Experimente comprar um quilo de laranja em qualquer varejão ou supermercado. Não obstante as ofertas atuais e constantes, o preço não está muito diferente daquele praticado antes da safra deste saudável fruto cítrico.
Depois, sem precisar ir muito longe, preste atenção nos laranjais da região. Todos eles estão repletos de laranjas maduras. E, ao contrário da conhecida e quase folclórica música de Ataulfo Alves, nenhuma delas está com bicho. Vai longe a época de ‘laranja madura na beira da estrada, está bichada ou tem marimbondo no pé’. Aliás, são sadias e muito doces.
Hoje em dia, a laranja se perde no pé por não compensar o trabalho de colheita. A fruta vem sendo vendida a cinco reais a caixa. Para colher uma caixa, o produtor paga valor até superior ao trabalhador. Em vista disso, os citricultores preferem deixar o suculento fruto perder na lavoura. Arranjos econômicos acontecem desde tempos de antanho. Sempre que a oferta se expande, o governo entra na história para contrabalançar o mercado. Só que nada sai de graça. Toda intervenção oficial com a finalidade de regulamentar preço tem um valor extra, cobrado do próprio consumidor. Quem paga o pato, em forma de subsídios, vindos dos impostos, acaba sendo sempre aqueles de menos poder aquisitivo.
Durante o governo de Getúlio Vargas, o Brasil viveu enorme crise financeira que acabou afetando o mercado de café. Para facilitar a vida dos cafeicultores e não provocar quebradeira geral, o Ministério da Agricultura começou a comprar o produto. Daí nasceu a figura do ‘laranja’. Tratava-se de uma pessoa de poucas posses. Alguém fornecia verba a ele. Este criava uma empresa apenas para comprar o café. O produto depois era queimado. Essa prática forçava a manutenção do preço.
As negociatas eram feitas unicamente para o preço continuar alto no mercado. Por isso, o consumidor acabava pagando o mesmo alto valor pelo café.
De nada adiantava a excessiva produção agrícola vigente na época. Com generalizados protestos de citricultores para forçar o governo a comprar as laranjas excedentes da safra e repassá-las aos programas de alimentação custeados pelo poder público, não demora pode surgir o ‘laranja da laranja’ no mercado das benesses, se bem que o setor de merenda escolar de muitas cidades teve problemas jurídicos por conta da compra de frutas do tipo.
Dizem que laranja descascada vale mais. Será que já havia um ‘laranja’ no meio das transações de laranja?
Antônio Araújo
Articulista e professor - tonin.palavras@uol.com.br