“Só sei que nada sei”
Sócrates, filósofo grego
Durmo pouco. Para os padrões da maioria da população, diria que muito pouco. Normalmente, cinco horas. Com alguma frequência, repouso ainda menos, restringindo a três ou quatro horas o tempo de sono. Ainda assim, não me acho insone. Simplesmente não gosto - e nem preciso - dormir mais. Para mim, diferente da maioria das pessoas, que associam sono a prazer, dormir parece uma tremenda perda de tempo. Funciono desta maneira desde a infância e, por mais que médicos, mãe, mulher e amigos tentem me convencer do contrário, simplesmente não consigo dormir muito. No máximo, seis horas, o que para mim já é quase exagero e demanda um certo esforço. Sou assim.
É claro que passar mais horas acordado do que a absoluta maioria das pessoas que o cercam exige lá suas artimanhas. O grande desafio é encontrar o que fazer quando todos dormem. A leitura é um bom remédio. Vale qualquer gênero, com exceção de auto-ajuda, que detesto. Nesta última semana, me deliciei com um livro que tem o sugestivo título de “? - O livro da ignorância generalizada”. Os autores, John Mitchinson e John Lloyd, reuniram nesta obra 230 respostas para perguntas às vezes um tanto improváveis - mas, mesmo assim, não menos pertinentes. É uma diversão só.
Um bom exemplo é descobrir que o lugar mais seco da Terra, ao contrário do senso comum, não está num deserto de areias escaldantes. Seco mesmo é a Antártida, o continente gelado, que paradoxalmente concentra 70% da água doce do mundo. E é ali, nos “Vales Secos”, que não chove nunca. Ou quase nunca. Nos últimos dois milhões de anos, não caiu uma gota sequer. Em segundo lugar está o deserto de Atacama, no Chile, onde só chove uma vez a cada 400 anos. O lugar é simplesmente 250 vezes mais seco que o deserto do Saara.
Avançando nas páginas do livro, fiquei chocado ao descobrir que a Terra, ao contrário do que imaginava, possui sete luas, e não apenas uma. A Lua propriamente dita, a que vemos e nos habituamos a seguir, que influencia as marés e inspira os poetas e os amantes, tem outras seis companheiras. Muito menores mas, ainda assim, formadas de material semelhante e que, como a “original”, também desenvolvem órbitas em torno do nosso planeta. Uma delas tem até nome - Chruithne. As outras cincos foram batizadas com siglas.
Há astrônomos que não aceitam a definição, mas para mim não importa. De um jeito ou de outro, nunca soube que havia outros corpos celestes de tamanho considerável acompanhando a nossa Lua que, apesar de tão bonita, é fedida. A Lua cheira a pólvora. Isso também está no livro, assim como a informação de que o Universo não tem nada de negro. Ele é bege, se fosse possível a alguém observar o “conjunto da obra”. O que ninguém sabe explicar é porque a gente enxerga o céu negro à noite. O mais provável é que a luz das estrelas distantes simplesmente não chegou ainda até nós. Quando isso acontecer, nossos descendentes terão que conviver com dias eternos.
Tomei um susto ao aprender que não temos apenas cinco sentidos, mas nove. Além do tato, visão, paladar, audição e olfato, temos ainda a termocepção (o sentido do calor), equilibriocepção (como o nome diz, o sentido do equilíbrio), nocicepção (a capacidade de perceber dor) e o mais interessante deles, o propriocepção, que é o sentido do próprio corpo. É graças a ele que, mesmo de olhos fechados, sabemos a posição de nossos membros e, ao chutar o vazio, você segue consciente de onde está o seu pé.
Bem mais irrelevante, mas não menos interessante, é saber que a centopéia não tem cem pés. Na verdade, o número é variável. No mínimo, 15 pares. No máximo, 191. A quantidade é sempre ímpar. Estupefato, descobri que há um inseto, chamado tesourinha, dotado pela natureza de um mecanismo invejável para qualquer macho de outra espécie. Tesourinhas têm pênis sobressalente. Se acontecer alguma coisa com o original, brota outro no lugar. Um pesquisador japonês, certamente sádico, foi quem descobriu. Cortou o pênis de uma tesourinha-macho quando ele se divertia com sua namorada alada e viu surgir outro no lugar. Detalhe adicional: o afortunado animal ainda tem o pênis maior que o próprio corpo. Ainda assim, os tesourinhas não são os mais bem dotados da natureza. A honraria cabe às cracas, que adoram viver em cascos de navio, e cujo pênis é simplesmente sete vezes maior que o próprio corpo. Se fosse possível transpor o milagre para os humanos, seria um exagero até para a mais devassa das ninfomaníacas.
Mesmo com tanta informação curiosa, nada supera, para mim, a história de Mike, um frango natural de Fruita, no estado americano do Colorado. O destino de Mike seria a panela num dia qualquer de 1945. Seu dono deu-lhe uma machadada no pescoço, arrancou fora a cabeça mas não acertou a jugular. Sem querer, preservou também uma pequena parte do cérebro. O fato é que o frango, sem a cabeça, sobreviveu dois anos, alimentado por conta-gotas e rendendo algum dinheiro para o seu dono, que cobrava 25 centavos de cada interessado em conferir a bizarrice. Até hoje, em Fruita, comemora-se em maio o “Dia do Frango sem cabeça”.
Tudo isso é muito interessante - pelo menos, para mim - mas também profundo. Porque a cada surpresa, a cada descoberta, fica patente a conclusão do sábio grego Sócrates que, modesto, insistia que não sabia coisa alguma. É a mais absoluta verdade. Por mais que alguém estude, é nada perto da grandiosidade e complexidade do universo que nos cerca. Ainda que eu não dormisse uma única hora por dia e lesse sem parar, não haveria solução. Sou só mais um ignorante tentando aprender alguma coisa. Qualquer coisa.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br