Nos próximos dias estudantes de todos os níveis estarão retomando o ano letivo. Como professor universitário, aproveitamos o recesso para efetuarmos algumas reflexões sobre a questão do ensino, de uma forma geral
Durante nossa vida docente, começamos a observar, anotar e questionar alunos sobre suas opiniões quanto ao ensino. Conversando francamente, após anos, chegamos à conclusão que em muitos casos, para os estudantes, a sala de aula se assemelha a uma prisão condicional, onde diariamente está obrigado a comparecer, ouvir e fazer coisas que não lhe dão nenhum prazer em busca de sua futura atividade profissional, submetidos que estão aos “caprichos” de alguns profissionais sem nenhuma vocação pedagógica. O que podemos esperar do processo educativo quando professores utilizam da hierarquia fundada no autoritarismo, que se impõem pelo medo, por exigências absurdas, que não preparam aulas, que não conseguem motivar e provocar discussões e debates de situações reais etc.? O que se pode esperar de professores cuja tarefa consiste apenas e unicamente num meio de vida, num trabalho assalariado como outro qualquer?
E o que falar da metodologia de ensino que ainda se mantém como da idade média, ou seja, o método “papagaio”, onde se exige que se decore, sem ao menos terem a certeza da eficácia de tal método e para que serve, pois o aluno passa a responder sem saber o porque, não aprende as causas e suas consequências. Numa época em que as informações estão disponíveis nos meios impressos e eletrônicos, será que ninguém percebe que através deste método o aluno só estuda para tirar nota, numa “estratégia de sobrevivência” para passar de ano? De que adianta tal metodologia, se na semana seguinte o aluno já esqueceu o conteúdo da prova anterior e passa a se preocupar em decorar a matéria da prova seguinte?
Alguns professores insistem em restringir suas aulas à mera transmissão de conhecimento, repassando o que está escrito em seu livro didático adotado, sem analisar e refletir sobre o conteúdo. Outros chegam ao absurdo de ditar e copiar o texto do próprio livro. Para nós, os tempos de aprendizagem são outros, a capacidade de aprender é muito diferente do simplesmente memorizar, sendo impossível quantificar a inteligência dos alunos simplesmente pela capacidade de memorização. Porém somente o tempo e as novas gerações poderão, ou melhor, conseguirão se desvencilhar da ilusão da meritocracia acadêmica. Bem a propósito o escritor Oliver Sacks escreveu em artigo no livro Um Antropólogo em Marte (Companhia das Letras) que: “Idiot savants são idiotas incapazes de pensar racionalmente que, entretanto, têm memórias prodigiosas que guardam tudo, completamente divorciadas da sua inteligência”.
Também em nossas observações nos deparamos com a falta de coragem de enfrentamento de situações diferentes e pouco abordadas, como por exemplo, nos TCs (Trabalhos de Conclusão), onde alguns alunos que tentam pesquisar sobre temas diferentes por vezes são desestimulados exatamente por ouvirem que não há livros para pesquisa. Ora, como aceitar que orientem que somente se deva fazer TCs de assuntos que já existam várias fontes para pesquisa? A linha evolutiva em sociedade passa exatamente pela abordagem, estudo e pesquisa do inovador, obviamente que não terá um trabalho pronto e definitivamente perfeito, mas sim será a ideia inicial para algum ganho futuro na busca da equalização da vida em sociedade.
O professor crítico se vê, então, diante do dilema de se render à maioria, ou seja, aos vícios institucionalizados pelo sistema de ensino ou insistir em modificações, sob o risco de ser colocado à margem. Não é fácil ser um profissional do ensino que respeita seus alunos, trata-os como sujeitos e não como objetos e acredita em sua capacidade autônoma de aprender e de ensinar, pois terá a simpatia de uns poucos, mas muitos não o levarão a sério, confundindo liberdade com licenciosidade, acreditando ser o professor apenas um sonhador e idealista.
O educador que respeita seus alunos: prepara suas aulas; questiona os modelos amparados na “decoreba” e na classificação dos alunos através dos exames e notas; está aberto às críticas; faz auto avaliação do seu desempenho; está ciente quanto a sua responsabilidade do ato de educar e se a sua atuação favorece a formação de alunos responsáveis, que respeitem uns aos outros, sejam solidários e desenvolvam o senso crítico; questiona se a sua práxis pedagógica representa um bom modelo para os alunos e se demonstra coerência entre o que fala e o que faz; que está seguro quanto aos seus conhecimentos, a didática e as atitudes que marcam o seu relacionamento com seus alunos; etc. Este profissional certamente quando propor alguma atividade aos alunos, não será questionado se: “Vale Nota Professor?” e com certeza, não passará despercebido e não será esquecido na vida deles. A todos um bom retorno às aulas!
ECOPONTOS
A Prefeitura Municipal de Franca anunciou a licitação para ecopontos na cidade, ou seja, locais para deposição de entulhos. Como professor de direito ambiental, louvamos a medida, mas os ecopontos isoladamente não resolverão os problemas, pois como os anteriores, provavelmente irão se tornar “lixões” sem nenhuma fiscalização. A administração sabe perfeitamente disso, porém estão apenas cumprindo um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta). Agora, como é que ficará a situação dos cidadãos que residem em torno dos ecopontos?
CONCURSO PARA MÉDICOS
Novamente a administração municipal tenta contratar médicos para atendimento à saúde, agora através de concurso por processo simplificado. E, muito provavelmente não conseguirá suprir as vagas e se conseguir terá que tomar cuidado quanto à qualidade e à capacidade dos profissionais que se sujeitarem a receber tais salários por suas atividades em troca da grande responsabilidade que terão. Na realidade a dificuldade é que para os servidores municipais sempre foi prometida a implantação de plano de carreira que motivaria o profissional, mas nunca foi concretizado na plenitude.
Toninho Menezes
Advogado, administrador de empresas, professor universitário - toninhomenezes@comerciodafranca.com.br