09 de julho de 2026

Frei Berardo: um craque quase centenário na arte da palavra


| Tempo de leitura: 7 min
O frei franciscano Berardo Paolino, que chegou ao Brasil há 64 anos, completa cem anos no dia 11 de junho de 2013 e vai receber homenagem na Itália

Em 2 de abril de 1947, um navio partiu do porto de Nápoles, Itália, com destino ao Brasil. A pedido do bispado de Jaboticabal, nele, vinham dez religiosos franciscanos com a missão de suprir a falta de “braços” evangelizadores no interior de São Paulo.

Em seu diário de bordo, um deles, frei Frederico Curátolo, relata a partida: “Às duas e meia da madrugada, ouvimos o som da sirene, sinal de que o navio estava de saída da baía de Nápoles. Todos fomos ao convés para dar adeus à cidade e à Itália. Às três e dez da madrugada, o navio afastava-se do porto, enquanto nós persignávamos com o sinal da Cruz pedindo a Deus proteção e amparo ao longo da viagem. Por longos 45 minutos ficamos olhando a visão noturna de Nápoles iluminada e enfim voltamos para a cama, depois desse último adeus”.

Um adeus triste e corajoso. Um adeus de quem se resignava a abandonar suas famílias, suas raízes e seu país por um ideal missionário que os envolveria pelo resto de suas vidas. Entre eles, havia um frei que na época tinha 35 anos. Era o frei Berardo Paolino, que hoje, prestes a completar um século de vida, no dia 11 de junho de 2013, surpreende pela lucidez, pela vitalidade e pela alegria com que ainda encara a vida, segundo frei Joaquim Camilo Alves, formador de postulantes do Convento Santa Maria dos Anjos, em Franca, onde Berardo mora há cerca de 20 anos. “Frei Berardo é um exemplo para todos no seminário. A alegria com que ele sai de seu quarto todas as manhãs é algo contagiante, o que mostra que ele não se frustrou nem um pouco com a vida que escolheu”, diz Joaquim.

Hoje, vivendo mais tranquilamente e já precisando de uma cadeira de rodas para se locomover, Berardo não consegue mais trabalhar a terra, sua grande paixão, nem tampouco se aventurar nas viagens e andanças que o tornaram famoso na região, sempre levando suas benções, evangelizando e esmolando, características que, segundo ele, são as marcas de sua verdadeira vocação. “Até uns três anos atrás eu ainda trabalhava na horta e no jardim, mas agora, aqui nessa cadeira de rodas, já não está dando mais”, diz frei Berardo, ainda com seu forte sotaque de italiano.

FAZENDA
Nascido em Alvignano, na província de Caserta, Berardo demorou um pouco para descobrir sua vocação sacerdotal. Durante um bom tempo, ficou em dúvida entre seguir com a vida simples na fazenda de seu pai ou entrar para o seminário. Em uma época em que também os filhos de fazendeiros trabalhavam duro, lutando com a família na lida diária do campo, Berardo acabou escolhendo um tipo diferente de austeridade, também com muito trabalho e dedicação, mas prioritariamente voltada para as orações e para a exigência de uma vida regrada e despojada de todo e qualquer bem material.

Como o mentor, São Francisco de Assis, Berardo também deixou sua casa sem se preocupar com herança ou quaisquer outros bens. Se não saiu nu pelas ruas da cidade, como o santo criador da Ordem o fez em Assis, também não levou muita coisa.

“Eu peguei sete, lembro-me bem, sete liras para pagar o trem até o convento. E mais nada.”

Quando chegou ao Convento de Santa Maria Occorrevole, em 1935, aos 23 anos de idade, a primeira coisa que ganhou foram algumas ferramentas e uma ordem para começar a carpir e cuidar do abandonado jardim. Passou longos quatro anos cuidando do jardim e, para felicidade de seus superiores, conseguiu recuperar totalmente o lugar.

Nesse ínterim, porém, seu pai foi até o convento e tentou demovê-lo da idéia de ser um frade franciscano. Em sua visita, prometeu-lhe uma fazenda, caso ele voltasse para casa. Durante dias, Berardo diz ter ficado em dúvida, sem saber o que fazer.

Em um determinado momento, porém, ao passar pelo Santíssimo, diz ter ouvido uma voz que o desafiava a tomar uma decisão. “A voz me dizia claramente: eu te chamei para ser religioso e agora você quer voltar? Por que isso?”

Berardo diz ter ficado de joelhos diante do Santíssimo durante uma hora, mas finalmente decidiu-se. No dia seguinte, levantou ainda de madrugada e andou por três horas para vencer os 17 km que separavam o convento da casa de seus pais.

“Quando eu cheguei lá, já de manhã, fui logo dizendo que não queria a fazenda nem nada. Disse que por mim eles poderiam dar tudo para os outros. E depois voltei mais tranquilo para o seminário”, afirma Berardo.

E por lá ficou por 12 anos seguidos, até seguir viagem para o Brasil. Durante esses anos, trabalhou e estudou muito.

ESMOLANDO
Mas além de estudar e trabalhar na terra, Berardo logo começou a esmolar, uma prática que antigamente era bastante característica dos franciscanos, dos carmelitas e dos dominicanos, que formavam as chamadas ordens mendicantes. Por terem abdicado de todas as riquezas mundanas, eles podiam pedir com tranquilidade e sem nenhum peso na consciência, já que as esmolas eram sempre direcionadas para a realização de obras evangelizadoras ou de caridade.

“É uma troca que fazemos com as pessoas. A gente valoriza os homens ao nos dedicarmos a sua salvação, entregando-lhes o que temos, ou seja, a bênção e a palavra de Deus. Em troca, eles nos dão um pouco do que têm para ajudar em nosso sustento e na continuação de nossa obra”, diz tranquilamente Berardo, que muito se orgulha de sua capacidade de conseguir levantar recursos junto aos fiéis para as obras nas quais sempre se engajou.

“Frei Berardo nunca foi muito de altar. Sua vocação sempre o levou para a rua e para o povo. Lembro-me de que ele pegava sua Belina usada e saía pela região. Conseguia dinheiro, arroz e até vaca. E as pessoas gostavam de suas bênçãos e de sua pregação”, conta Joaquim.

Com o tempo, pode-se dizer que Berardo tornou-se um verdadeiro “craque” na arte de esmolar, algo que foi importantíssimo em seu trabalho aqui no Brasil, pois foi a partir do dinheiro arrecadado junto aos fiéis que várias obras religiosas puderam ser realizadas nas cidades e regiões por onde passou, inclusive aqui em Franca, já que ele trabalhou bastante para ajudar a erguer e ampliar tanto a Paróquia de São Judas Tadeu quanto o seminário.

“Logo que cheguei ao seminário, consegui dinheiro para comprar mais dois alqueires e nessas terras logo começamos a plantar milho, feijão e outros produtos que ajudam em nosso sustento.”

No início de sua estada no Brasil, Berardo foi para Bebedouro. Mas ficou por lá apenas oito meses e seguiu para Olímpia, cidade que acabou sendo uma espécie de sede do grupo que veio da Itália.

Naquela cidade, ficou aproximadamente 10 anos, esmolando e evangelizando. Depois foi para Ribeirão Preto, onde foi incumbido de terminar uma igreja que estava parada. Durante três anos, trabalhou intensamente. Viajando por toda a região e chegando até mesmo a cidades mineiras, conseguiu levantar os recursos necessários para terminar a obra.

INSISTENTE
Certa vez, recorda-se Berardo, ele visitou uma fazenda próxima a Ribeirão. O fazendeiro, assim que o viu de batina, mandou-o embora, dizendo que não gostava de padre. Mas ele não se fez de ofendido e insistiu. “Eu lhe disse que a missão dele era trabalhar, criar sua família e ajudar a desenvolver a cidade e a região e a minha era orar e cuidar de sua alma, algo que ele não tinha muito tempo para fazer.”

Aos poucos, o fazendeiro foi cedendo. “Ao final da conversa, ele gritou para sua mulher trazer o cheque, o qual preencheu agradecido e bastante caridoso.”

Apesar de seus quase 80 anos dedicados à ordem franciscana, Berardo nunca chegou a figurar como superior. Tampouco ordenou-se padre. Até hoje é simplesmente um “frei irmão”. Mas a explicação para isso não está em uma possível falta de capacidade ou em qualquer outro tipo de impeditivo. É mais simples. Para Berardo, o mais importante de tudo sempre foi a sua vocação. Ele nunca se interessou por poder. Queria simplesmente cumprir com seus deveres junto ao Deus que ele abraçou.

“As pessoas que dão esmolas não são bobas, elas percebem a índole e a honestidade das pessoas que pedem. Elas também observam o que as ordens fazem com aquela doação”, pondera.

Frei Joaquim diz que, no próximo ano, a Província do Sagrado Coração de Jesus, em Nápoles, vai prestar uma homenagem ao centenário de frei Berardo, embora sem a presença dele. Um pouco pela idade e pela longa duração da viagem. Mas, fundamentalmente, porque frei Berardo tem muito medo de morrer na Itália e ser enterrado longe do país que abraçou como seu.

O fato é que frei Berardo, mesmo após passar para o outro lado, quer ficar no convento que ajudou a construir.