Considerando o ritmo de crescimento das cidades (no Brasil, oito em cada 10 habitantes vivem em áreas urbanas), ficamos apreensivos com a qualidade do desenvolvimento. Os desafios de trabalho, meio ambiente, saneamento básico, habitação, mobilidade, segurança pública, educação e saúde são o dia a dia dos administradores, e suas diretrizes selarão o futuro da comunidade.
Artigo de O Estado de S. Paulo chamou-me a atenção para projeto que reputo dos mais relevantes na questão de planejamento e entrosamento da iniciativa privada com o poder público e uma referência de soluções de revitalização urbana. Trata-se do Ground Zero ou Marco Zero, em Lower Manhattan, Nova York, Estados Unidos, onde se localizava o complexo do World Trade Center.
Difícil esquecer o atentado de 11 de setembro de 2001, que, transmitido ao vivo para o mundo todo, sentenciou à morte milhares de pessoas e trouxe ao solo as torres gêmeas que simbolizavam o espírito do empreendedorismo americano. Passados 11 anos, constatamos no local o resultado da engenharia, inovação, perseverança e superação do espírito humano. Numa área de 65 mil metros quadrados, inferior ao do clube Pinheiros, em São Paulo, estão projetadas cinco novas torres que alterarão drasticamente a região, pois serão construídos mais de um milhão de metros quadrados de escritórios, além de um shopping mall subterrâneo, um centro de artes com mais de mil lugares, um museu sobre o ato criminoso, o memorial em lembrança àqueles que se foram e uma central de transportes, com capacidade para mais de 200 mil passageiros diários. Estimativas do investimento total apontam algo em torno de 15 bilhões de dólares.
A primeira torre, WTC 1 ou Freedom Tower como foi apelidada, tem 104 andares e será o prédio mais alto de Nova York a um custo previsto de 3,8 bilhões de dólares, conclusão prevista para o ano que vem. Esta torre soma-se aos 88 andares da número 2, os 71 da 3, os 61 da 4 e mais a 5. Juntas, aportarão mais de um milhão de metros quadrados de escritórios. É inevitável perguntar: quantas pessoas trabalharão no local? Se considerarmos 15 metros quadrados de escritório para cada profissional, chegaremos a 66 mil pessoas, o equivalente a uma cidade como Amparo (66 mil), no interior paulista.
Qual o número de garagens para atender esta demanda? Pelo padrão brasileiro de prédios comerciais triple A – 35 metros de escritório para cada vaga –, seriam 28,5 mil vagas, sem contar demais equipamentos culturais e de entretenimento. Um número assustador, para não dizer, inviável! Ai é que entra o planejamento. A primeira torre, com 250 mil metros quadrados de escritório, não possui mais do que duas centenas de vagas de garagem. Todos chegam via transporte público, já que no local foi projetada central de transporte similar à da Grand Central Station (maior estação de trens de Nova York), permitindo tráfego diário de 200 mil pessoas. Ou seja, podemos crescer sim, desde que a infraestrutura urbana, principalmente a de mobilidade, nos acompanhe.
Certas estão as administrações públicas que investem pesadamente no transporte coletivo, pois novos milhões de metros quadrados de escritório, estão sendo projetados em grandes cidades brasileiras. O crescimento é saudável, pois atende às necessidades do ser humano como emprego, renda, cultura e inovação, mas se exige que seja planejado, para que tenhamos interessantes histórias, como a de Nova York, para contar.
Luiz Augusto Pereira Almeida
Diretor da Federação Internacional de Profissões Imobiliárias/Brasil