Era uma vez um cara que morava dentro de um barril. Eu contava treze invernos, nessa mesma época.
Ele tinha uma cama, uma mesinha dobrável, um violão e um cachorro manso. Ali não faltava nada. Havia comida para o hoje e desejo pelo amanhã, além de: óleo para a lamparina, um bom casaco de lã para o frio, uma sandália resistente para as caminhadas, água potável para a saúde, e livros... Ele tinha muitos livros e as capas eram muito coloridas, do tipo que dá água na boca e parecem doces ao paladar. Eu tinha vontade de comer/ler/conversar/descobrir/ali-mentar aquele homem, mas segui só observando.
Eu amava dar “bom dia”, a ele!
Parecia tão confortável no mundo, eu invejava aquilo.
Ausência de conflito que transparecia na suavidade dos gestos, na tranquilidade da alma e numa paz intrigante do olhar. Eu acreditava que ele sabia algum segredo e não poderia compartilhar falando, só mostrando. Eu sentia nele um discurso calado e intenso.
Ele era parte daquela natureza. Fundido com as pedras e a montanha, harmonicamente integrante daquele cenário, eu o podia ver voando como uma águia, e tocando o sol toda vez que pegava o violão. Ele exaltava o pôr-do-sol, e o nascer-do-sol, cantando.
Eu percebia que ele tinha mais do que eu, até que um dia veio minha certeza. O dono da fazenda, com medo de que ele fosse mais um desses sem-terra, foi até ele e disse:
- Saia das minhas terras até amanhã, senão mando te matar.
Ao que ele respondeu:
- Perdoe-me, patrão, amanhã sigo viagem e deixo suas posses; agora, por favor, saia da frente do meu Sol.
O apelido dele era Cínico... Nunca mais o vi por aquelas bandas.