Há cerca de cinco anos, a vida da dona de casa Rosângela Aparecida Silva virou de cabeça para baixo. O seu padrasto Durval Santos, então com 65 anos, começou a ter problemas de saúde. Ele passou por dois cateterismos e teve três infartos. O último deles foi seguido de derrame. Para piorar, Santos ainda ficou com um coágulo no coração em decorrência dos problemas anteriores. Sem condições de cuidar do padrasto por causa da condição financeira de ambos, Rosângela começou uma via sacra que duraria dois anos para encontrar uma instituição que cuidasse do seu padrasto. Ela procurou dois asilos de Franca, que chegaram a visitá-la, mas não aceitaram o caso de Santos pelo fato de ele ser totalmente dependente. Os asilos locais só aceitam idosos com certa autonomia. Os únicos incapacitados atendidos são aqueles que já moram nas instituições. Rosângela chegou a ficar na lista de espera de outras instituições, mas não conseguiu uma vaga. Ela, então, desistiu e resolveu cuidar do padrasto. “Ele me criou desde pequena e merecia ser cuidado por nós.” Esse capítulo na história de Rosângela terminou na última terça-feira: seu padrasto morreu, sem ter conseguido colocar os pés numa instituição para idosos.
A situação enfrentada pela dona de casa é bastante comum em Franca. Exceto algumas instituições particulares, os asilos estão praticamente lotados, com listas de esperas longas e que demoram a rodar. Geralmente, os que aguardam uma vaga precisam esperar que um idoso morra ou, em casos mais raros, seja retirado da instituição pelos familiares.
Quatro de cinco asilos ouvidos pelo Comércio (Lar “Eurípedes Barsanulfo”, Casa São Camilo de Lellis, Instituição Espírita Nosso Lar “Dona Leonor” e Fundação Espírita Judas Iscariotes “Lar de Ofélia”) possuem uma lista de espera combinada de 94 pessoas. A quinta instituição, o Lar São Vicente de Paulo, é a única que tem vagas, mas apenas uma. Ela não trabalha com listas de espera.
A única forma de um idoso se instalar imediatamente em um asilo de Franca é através do encaminhamento da Santa Casa, que deve ser obrigatoriamente acatado pelas instituições devido a um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) que todas elas assinaram.
Até mesmo as instituições particulares estão próximas da exaustão. O Lar do Vovô, por exemplo, possui capacidade de internação para 15 pessoas, com 14 já ocupadas. Já na Clínica Geriátrica do Hospital Psiquiátrico “Allan Kardec”, que atende pacientes com mal de Alzheimer e quadros de demência - além de “hospedar” idosos que familiares não têm como cuidar em curtos períodos de tempo, como férias -, há apenas duas vagas disponíveis, de um total de 30. A exceção é o Residencial Vitativa de Franca, que ainda pode abrigar 15 idosos de um total de 24.
De acordo com a assistente social do Conselho Municipal de Assistência Social, Maria Aparecida Morais, parte da culpa desta alta demanda é da própria população. “(Os asilos) são voltados para aquele idoso que não tem familiares nem ninguém que possa cuidar dele, com a internação devendo ser considerada em último caso. No entanto, a família muitas vezes quer se ver livre do idoso e o leva para (os asilos), mesmo quando há outras alternativas.
Maria Aparecida disse que a Secretaria de Ação Social pretende aumentar os recursos que o município repassa para todos os asilos, mas não acrescentar novas vagas, de modo a não incentivar que idosos sejam colocados nas instituições sem que seja necessário. Mas, ela admite que a grande demanda na cidade exigiria a ampliação das instituições existentes.
Mesmo sem o apoio da Secretaria, o Lar de Ofélia deve criar já em novembro 60 novas vagas, sendo que 30 serão voltadas para pacientes com quadro de Alzheimer ou outro tipo de demência senil. Outra ampliação deve acontecer no Lar “Eurípedes Barsanulfo”, que espera um repasse maior da Prefeitura para poder atender 45 pessoas - hoje, são 19.