“A primeira vez foi quando eu estava grávida de sete meses do nosso filho, há mais de sete anos. Ele deu um chute na minha barriga. Meu genro chegou e viu ele chutando. Chamou a polícia... A polícia vivia direto na minha casa. Faz muito tempo que acontece isso. Este ano, ele ficou quatro meses sem beber, trabalhando. Depois começou tudo de novo. A última vez que aconteceu foi no dia do meu aniversário (24 de junho). Ele me bateu, quase quebrou o meu nariz, que está dolorido até hoje. Ele bate no meu menino, xinga minhas meninas, meus netos. Os vizinhos escutam tudo, mas ninguém se mete porque ninguém quer ser testemunha. A mãe dele não o aceita dentro de casa. Se eu falo para as irmãs dele me ajudarem a tirar ele de lá, elas dizem que sou eu quem tem que tirá-lo de casa. Aí eu venho pra cá, porque o único recurso que eu tenho é a delegacia”, desabafa Ana (nome fictício), 46.
A história de Ana é apenas uma de cada três ocorrências de violência doméstica registradas diariamente na DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) de Franca. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, de janeiro a maio deste ano foram 466 ocorrências de lesão corporal dolosa, ou seja, com o intuito de machucar. De acordo com o delegado Eduardo Lopes Bonfim, responsável pela DDM, este índice é constante. Grande parte das ocorrências envolve as mesmas vítimas, que registram a queixa e depois acabam retirando-a.
Para Bonfim, a desistência das mulheres em levar um inquérito de violência doméstica adiante acontece, na maioria das vezes, por reconciliações da vítima com o agressor ou por falta de independência financeira da mulher. “Um fator é que normalmente a agressão está ligada à bebida. O agressor, quando fica sem beber, pede desculpas, maneira um tempo, a mulher volta atrás e retira a queixa. Outro fator é que várias mulheres não trabalham e dependem do marido. Para ela sair dessa situação, ela teria que dar uma guinada na vida dela, e nem sempre isso acontece”, explica.
É mais ou menos o caso de Ana. Ela compareceu à DDM inúmeras vezes para registrar ocorrências contra o marido, mas sempre recuava e retirava as queixas. “Eu ficava com dó dele. Só que agora eu não vou mais retirar (a queixa). Vou processar ele mesmo. Estou decidida, não vou voltar atrás. Não quero que ele ponha os pés no meu portão”, disse. O agressor de Ana vivia com ela há mais de dez anos. O casal teve três filhos. Segundo ela, o marido abandonou a casa há 15 dias.
COMO PROCEDER
A DDM de Franca tem profissionais do sexo masculino e feminino para atender as vítimas. “A mulher às vezes se constrange de falar com uma pessoa do sexo masculino, então ela pode conversar ou com uma escrivã ou uma investigadora”, diz Bonfim. A partir do relato da mulher, é feito um boletim de ocorrência e a delegacia se encarrega de tomar as providências legais, como instauração de inquéritos e pedidos de medida protetiva.
O importante, segundo Bonfim, é que a pessoa não se cale diante da violência doméstica. “Lá dentro (DDM), a mulher vai ser tratada como ela merece, como uma vítima de uma situação de violência. As pessoas realmente devem denunciar, não podem ficar quietas. É preciso tomar atitudes para mudar a vida, porque ninguém merece ficar apanhando.”