A comunidade se reúne para celebrar a festa da vida que vence a morte, ouvindo a Palavra e repartindo o pão eucarístico
PRIMEIRA LEITURA
Muitas vezes ouvimos falar de profetas, de profecias, de profetizar. Aprendemos que no Batismo recebemos o Espírito que nos elevou à dignidade de profetas. Talvez, porém, nos perguntemos o que tudo isso significa. A essa pergunta responde a leitura (Ezequiel 2) que, apresentando-nos a figura de Ezequiel, explica quais são as características de um profeta. Antes de tudo, é uma pessoa chamada por Deus.
O profeta não é um anjo, não é um personagem dotado de poderes misteriosos, de forças sobre-humanas, é um simples homem, fraco, com todos os seus defeitos, suas fraquezas, seus pecados. Esse homem escolhido por Deus tem uma missão a cumprir. Não é encarregado de fazer milagres, de prever o futuro, de realizar feitos extraordinários. Dele Deus espera somente uma coisa: que transmita a sua palavra.
Deus não tem boca, e para comunicar-se com os homens, serve-se da boca de alguém dentre eles. Aquele, a quem é confiada essa missão, deve escutar com muita atenção aquilo que, no íntimo do coração, Deus lhe sugere. Em seguida, deve anunciar fielmente aquilo que ouviu, sem mudar nada, sem nada acrescentar e nada omitir.
A quem é enviado o profeta? Às pessoas da sua nação, que podem estar dispostas ou, ao contrário, podem ter um coração rebelde. Ele não deve se preocupar com os resultados da sua missão. A Ezequiel Deus diz: “Quer te ouçam ou não... hão de ficar sabendo que há um profeta no meio deles”.
Por força do próprio batismo, cada cristão é chamado a ser profeta, é enviado para comunicar aos irmãos a palavra de Deus. O que deve ele fazer? Deve anunciar a todos, com fidelidade, o evangelho, com as palavras e com a vida. Deve anunciá-la aos filhos, aos vizinhos, aos colegas de trabalho, aos irmãos da comunidade. Para conseguir cumprir esta missão deve antes manter-se em piedosa escuta da mensagem de Deus e deixar que ela penetre até o âmago do seu coração. Em seguida deve anunciá-la com destemor, mesmo que o ouvinte possa sentir-se importunado ou perturbado.
SEGUNDA LEITURA
Paulo teve que enfrentar muitas perseguições, adversidades, aflições, durante sua vida. No trecho em questão (II Carta aos Coríntios 12), ele faz menção a um problema que lhe provoca vexame e muito sofrimento: revela que se trata de algo muito doloroso, como de um espinho cravado na carne. Refere-se à inimizade dos membros do povo de Israel, que Paulo, na Carta aos Romanos, chama de “seus irmãos e consanguíneos segundo a carne”. Ele lembra a própria incapacidade de suportar por mais tempo a oposição deles e a tentação de desistir que experimentou diante dos obstáculos interpostos por eles à sua pregação.
O que aconteceu a Paulo repete-se frequentemente também em nossos dias. Há pessoas que se envolvem generosamente na pregação do evangelho, que dedicam gratuitamente tempo, energia e até colaboração financeira para a própria comunidade, mas que, por causa de inveja, de ciúme, de incompatibilidade de gênio ou de ideias, se tornam alvo de críticas injustas e, às vezes, até de autêntica perseguição por parte de seus próprios irmãos na fé. Este é um espinho muito doloroso e Deus não o arranca. Ele não elimina milagrosamente as diferenças, mas comunica a força para superá-las. Ele não isenta o profeta da fraqueza da sua condição humana (doenças, cansaço, deficiências...), mas quer que através da fraqueza do instrumento se manifeste o seu poder.
EVANGELHO
Encontramos Jesus em sua terra natal, acompanhado pelos discípulos, conforme Marcos 6. Pela última vez, vai à sinagoga no sábado, conforme o costume do seu povo. Como adulto, tem o direito de usar da palavra e aproveita para ensinar. Há grande interesse em ouvi-lo. Muitos o imaginam todo-poderoso, investido de poderes políticos especiais. Mas o conteúdo de sua fala causa perplexidade porque todos o conhecem como um simples homem, um carpinteiro, parente e familiar de seus vizinhos e amigos.
Jesus logo percebe o que baila em suas cabeças e declara com certa tristeza: “um profeta só e desprezado em sua terra”. Com esta afirmação, se apresenta como profeta, explicita a que veio e declara o sentido de sua missão. Proclama o alcance de sua vocação, pois foi enviado pelo Pai para visitar o mundo, trazer-nos a salvação e oferecer vida em plenitude.
É contraditório que, no início da missão na Galileia, tenha sido aceito com entusiasmo pela multidão que ouvia a Boa Nova, sobretudo os pobres e doentes. Sofre rejeição em sua terra natal, por parte de seus familiares e vizinhos. Seus conterrâneos esperavam por um messias forte e dominador e não podiam imaginá-lo simples carpinteiro e filho de Maria.
O que é extraordinário em Jesus-Messias é o fato de em nada ser diferente da pessoa humana comum: sua encarnação. O Filho de Deus se fez como qualquer um de nós, inseriu-se na história de seu povo, onde aprendeu e cresceu em humanidade.
José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br