08 de julho de 2026

Artistas de mil e uma utilidades


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Flávia, grávida de cinco meses, e o marido, Gilson de Souza, atuam juntos como malabaristas no espetáculo e como vendedores de algodão nos intervalos; ele ainda é trapezista e ela bailarina e ajudante do mágico

A crise pelo qual passam os circos de pequeno e médio porte no Brasil fez com que os artistas se adaptassem à nova realidade, assumindo mais de um papel por espetáculo.

No Rakmer, circo instalado em Franca desde junho e que permanece na cidade até o próximo domingo, o palhaço é também um dos motoqueiros do globo da morte e participa dos números de equilibrismo e trapézio. O colega trapezista faz as vezes de malabarista e também vende algodão doce. A bailarina ajuda o mágico e comercializa lembrancinhas durante o intervalo. Os salários dos artistas são fixos e pagos semanalmente, independentemente da quantidade de público, de acordo com o número de funções exercidas.

As histórias de quem vive no circo são parecidas. A maioria tem pai, mãe, e avós na mesma profissão, mas trabalhando em picadeiros espalhados pelo Brasil. A bailarina e malabarista do Rakmer, Flávia Souza, é uma delas. Casada com Gilson Souza, malabarista, ela vê a família apenas uma vez por ano, no Natal. Todos eles trabalham no Circo Marcos Frota, onde ela também vivia até conhecer o marido. Aos 24 anos e grávida de cinco meses, ela se prepara para ter o primeiro filho.

Flávia, que começou a se apresentar aos seis anos como malabarista, não sabe em que cidade seu bebê vai nascer, mas isso não a assusta. O pré-natal começou em uma UBS (Unidade Básica de Saúde) de Franca e terá continuidade nas próximas cidades em que o circo parar.

Ao contrário da mulher dele, Gilson não nasceu no circo. Natural de Belém, no Pará, aprendeu o que sabe em um escola, no bairro onde morava. O projeto tinha como objetivo tirar das ruas as crianças e ensinar uma profissão a elas. Deu certo com Gilson.

Os circos, no geral, funcionam como uma empresa. Quem se destaca acaba sendo convidado para trabalhar em outro lugar, ganhando mais. Ninguém conta quanto ganha, mas perguntados se mudariam de profissão, a resposta é unânime: não.

Gilson e Flávia, assim como os outros funcionários do Rakmer, têm carro e casa própria. Não uma casa convencional, com alicerce e telhado, mas uma casa com rodas, um trailer com cozinha, quarto, sala com ar condicionado e banheiro com chuveiro quente. O sinal de televisão e internet é digital em todo o circo. “Não é uma mansão, mas vivemos com mais conforto do que muita gente por aí”, diz Gilson.

As crianças do circo estudam como qualquer outra. A diferença é que elas mudam de escola com mais frequência. Nicole e Lavínia Santos, de oito e dois anos, respectivamente, são filhas de Henrique Chuvis, 30 anos, o palhaço Chumbrega. Junto com as outras quatro crianças do circo, elas frequentam o Colégio Liceu, em Franca, todos os dias.

A quantidade de cidades que passam, e a experiência que agregam com isso, claro, provocam curiosidade nos outros alunos, mas elas parecem não ligar. “Meu quintal é muito maior que o da maioria das minhas amigas de escola e eu conheço muito mais lugares que elas. É divertido”, afirma Nicole.

Cada família tem um trailer. Eles ficam estacionados em torno da lona central, formando uma espécie de minibairro. Durante a semana cada família cozinha sua própria refeição. No domingo, eles almoçam juntos.

“O artista circense é muito unido, no geral, pois somos a família um do outro. Não tem maldade e nem concorrência aqui. Somos todos irmãos”, afirma Antônio Bartolo.