O entrevistado deste domingo tem bagagem para falar de política. Roberto Engler está completando três décadas de vida pública. Iniciou sua carreira como vereador em 1982. Nas eleições de 2010, recebeu 95.275 votos, sendo 51 mil em Franca. Aos 68 anos de idade, cumpre o sexto mandato como deputado estadual, um recorde na história de Franca.
Por nove vezes, Engler foi o relator do Orçamento do Estado na Assembleia Legislativa. Em outras quatro oportunidades, foi o líder do PSDB na casa. Fundou o partido em Franca. No ano passado, tornou-se o coordenador dos tucanos em 16 cidades da região. Em 13 delas, o partido terá candidatura própria nas eleições de outubro.
Com um currículo desta envergadura, seria natural que Roberto Engler fosse o candidato a prefeito ou que participasse ativamente da campanha para tentar manter a hegemonia tucana em Franca, cidade que passou a ser rotulada como um reduto do PSDB devido ao expressivo resultado obtido nas urnas pelo partido em 2010.
Nem uma coisa, nem outra. Engler viu adiado o seu sonho de se tornar prefeito de Franca e não vai disputar as eleições. Também não é consultado nas decisões que norteiam a candidatura de Alexandre Ferreira. O deputado não tem dúvidas em apontar o responsável pelo seu afastamento do processo eleitoral: Sidnei Franco da Rocha, prefeito e presidente do diretório municipal do PSDB. “O prefeito deu, publicamente, uma demonstração dizendo: ‘eu não quero o Roberto Engler’. Ele fez com que eu estivesse fora desta eleição do PSDB e a eleição passou a ser dele.”
Aliados nas últimas eleições em que Sidnei venceu sem maiores dificuldades no primeiro turno, os dois líderes do PSDB estão rachados e não se falam. Engler recebeu o Comércio para esta entrevista na segunda-feira. Durante a conversa de quase uma hora, não citou uma vez o nome de Sidnei Rocha. Se referiu ao prefeito apenas como “ele”.
Afirmou que não há clima para subir no mesmo palanque que o prefeito na campanha e que o candidato tucano terá dificuldades para decolar. Comparou Sidnei Rocha a Lula e Alexandre Ferreira a Haddad. “Eu sou a Marta. Estou fora.” Engler disse que, se o PSDB vencer, os méritos serão do prefeito. Eventual derrota será culpa exclusiva do prefeito. Saiba o porquê a seguir.
Comércio - Nas eleições de 2010, a região se transformou num reduto do PSDB. O partido está preparado para repetir o mesmo desempenho?
Roberto Engler - O PSDB está pronto, mas cada eleição revela uma nova história. Estivemos muito bem há dois anos, mas agora vamos enfrentar forças que precisamos respeitar. Vamos nos empenhar para que o partido consiga fazer a Prefeitura no maior número de cidades possível. Isto é fundamental, não só para o partido, mas para as cidades, pois temos um governo estadual do PSDB.
Comércio - O partido terá candidatura própria em 13 cidades. A meta é levar quantas?
Roberto Engler - Temos feito uma avaliação cidade por cidade. Em princípio, as coisas pareciam mais fáceis. Hoje, quando todos que vão disputar a corrida eleitoral já estão na raia, a gente começa a perceber que os adversários são fortes e que as eleições serão difíceis. Cada cidade tem uma realidade diferente. Não temos uma estatística. Queremos fazer um bom papel em todas as cidades.
Comércio - O que o senhor espera da disputa em Franca? Vai dar para manter a hegemonia na cidade?
Roberto Engler - Será uma campanha difícil. A pesquisa publicada pelo Comércio no último fim de semana, que bate perfeitamente com os números que temos, mostra que a disputa será dura. Temos uma candidata que desponta, que é a vereadora Graciela. Ela está bem conceituada, foi a vereadora mais votada, é delegada da Mulher, foi bem nas eleições para federal. Ela aparece como uma força vigorosa. Agora, temos que entender que é uma pessoa que não tem experiência administrativa, que não teve ainda um cargo eletivo para Executivo. Temos que ver até que ponto isto vai favorecer ou não durante a campanha. Temos o deputado Ubiali, que também aparece bem na pesquisa e que já foi candidato a prefeito e tem experiência eleitoral. É uma força significativa. Temos o PT, que é um partido, queira ou não, que tem o seu eleitorado. A candidatura deve crescer durante a campanha. Até acho que não chega, mas vai participar bem. Temos o candidato do PSDB, que é médico, perdão, veterinário, que foi secretário de Saúde, que é o Alexandre. Nós conhecemos sua performance à frente da Secretaria. Ele tem o apoio do prefeito e vem como uma força, mas, também, não teve uma experiência eleitoral. Postulando o cargo máximo do Executivo, não sabemos o que isto vai significar na campanha, mas não deixa de ser uma força. O Cassiano apresentou um resultado pequeno na pesquisa, mas tem muito potencial porque é muito preparado. Ele deve subir nas pesquisas. Será uma eleição difícil.
Comércio - Qual o grau de dificuldade a ser enfrentado pelo PSDB?
Roberto Engler - Alto. Na medida em que o candidato quer crescer, ele tem que crescer em cima dos votos dos outros, mas os outros também querem crescer. A coisa não está livre. A Graciela tem seus votos, o Ubiali tem os seus votos e o PT tem os seus votos. Então, o crescimento do Alexandre vai ser dificultado pelo trabalho de seus concorrentes. A coisa não está fácil.
Comércio - No ano passado, o senhor ficou magoado com o prefeito pelo fato dele ter lançado os candidatos dele enquanto o senhor ainda avaliava se iria disputar as eleições. A mágoa ainda continua?
Roberto Engler - Não é mágoa. Eu diria que é um sentimento natural de qualquer pessoa. Ao lançar os seus pré-candidatos, o prefeito deu, publicamente, uma demonstração dizendo “eu não quero o Roberto Engler”. Havia um acordo comigo que ele só indicaria alguém depois que eu desse minha resposta e ele não esperou. Então, de forma surpreendente, numa terça-feira em que eu estava em São Paulo, ele convidou um pouquinho do diretório e lançou os três pré-candidatos nas minhas costas sem falar comigo. Foi um recado para a população: “Não quero o Roberto Engler”. Ele fez com que eu estivesse fora desta eleição do PSDB e a eleição passou a ser dele. Ele é dono dos três pré-candidatos, do Alexandre, que acabou chegando. Ele vai fazer a campanha do Alexandre. Se ele deu esta demonstração pública, significa que eu estou fora. Vamos lembrar que ele estava fora do cenário político e que eu o trouxe de volta, filiei e o fiz presidente do PSDB. No entanto, este foi o troco que recebi. Foi uma coisa inesperada. Não estou inovando [ao dizer que está fora]. Há um fato nacional em São Paulo idêntico. De repente, um homem chamado Lula falou assim: “Não quero aquela que está em primeiro lugar nas pesquisas. Não quero a companheira. Quero um novo. Vou fazer o meu prefeito”. E ele trouxe o Haddad. Nós, temos o Haddad em Franca. Nós temos um Lula em Franca, que fez a mesma coisa. Os dois, tanto lá quanto aqui, parece que patinam nos últimos lugares. Agora, eu me dou ao direito de ser a Marta Suplicy. Ah, foi assim? Foi assim. Então, eu tô fora! A Marta vai continuar sendo senadora e eu, deputado estadual. Ele [Sidnei], como é o presidente do partido, vai ter o bônus, se ele ganhar a eleição, e vai ter o ônus se perder.
Comércio - O Engler está afirmando que não participará da campanha?
Roberto Engler - Eu posso até participar, sou o coordenador regional do partido e não posso fechar esta porta, mas vai depender das conversas. Precisamos ver se o Alexandre consegue demolir o muro que o prefeito construiu para separar o PSDB tradicional, antigo e que sempre trouxe vitórias em Franca, do conjunto de pessoas trazido por ele.
Comércio - O deputado Gilson de Souza afirmou que decidiu apoiar Graciela por não ter sido procurado pelo prefeito. O senhor também ressalta a falta de interesse do prefeito em sua participação. O Sidnei está abrindo mão de duas expressivas lideranças que poderiam ser importantes para a candidatura do Alexandre?
Roberto Engler - Acho que ele abriu mão de outras também no instante em que não terminou bem com o vice prefeito [Ary Balieiro] e no instante em que chamou os vereadores com nome baixo [asnos]. Ele andou brigando com muita gente. Tenho conversado muito com o Gilson e ele me repetiu que não foi procurado pelo prefeito. Agora, é um problema entre eles. Eu fiz ele [Sidnei] presidente. Infelizmente, ele conduz a questão e preferiu conduzir desta maneira.
Comércio - O Sidnei será o responsável pelo vitória ou pela derrota do partido em Franca?
Roberto Engler - Não tenho a menor dúvida. Isto, já foi colocado para o partido em São Paulo, já foi informado ao governador. Se ele fizer o candidato, pôxa, parabéns, vamos aplaudir, todos os louvores, mérito para ele. Mas, se não fizer, o ônus é, integralmente, dele porque não soube convergir as pessoas que têm importância política no contexto do PSDB para ombrear com o candidato e fazê-lo vencedor da campanha.
Comércio - O senhor subirá no mesmo palanque que Sidnei Rocha?
Roberto Engler - No momento, ele não me dá nenhuma condição de dividir o palanque com ele. Vai depender, durante a campanha, de algumas conversas com o candidato. Para mim, é o candidato que tem de conduzir tudo. Ele não tem que ser conduzido por ninguém. Se ele conseguir pegar as rédeas, conduzir sua campanha e ter uma conversa comigo, nós podemos, quem sabe, diminuir as diferenças para poder ter uma participação na campanha.
Comércio - Há alguma chance de o deputado Engler apoiar outro candidato?
Roberto Engler - Nenhuma. Sou coordenador do PSDB, sou ciente das minhas responsabilidades partidárias. Mas devo dizer que, qualquer um que se sentar na cadeira de prefeito, a minha postura será a mesma de colocar os meus préstimos a serviço do prefeito eleito para o bem da Franca, qualquer que seja sua coloração partidária.
Comércio - O segundo turno é uma certeza?
Roberto Engler - A pesquisa publicada pelo Comércio da Franca, se não tiver grandes modificações e eu até acho que não teremos, mostra que a eleição será, fatalmente, conduzida para o segundo turno.
Comércio - O senhor ficou frustrado por não poder disputar a Prefeitura?
Roberto Engler - ... (interrompendo) Tenho uma coisa importante para dizer. Quando ele lançou os pré-candidatos, foi em outubro. Ele antecipou sobremaneira a indicação. Para quê isto? Eu estava pensando (em me candidatar). Ele não prejudicou só a mim. O que aconteceu depois? Ele criou uma guerra dentro da administração dele entre os três pré-candidatos. A própria Prefeitura e a população sofreram em torno disto. Partidariamente, também, virou uma confusão.
Comércio - O prefeito falhou na estratégia?
Roberto Engler - Foi uma estratégia proposital. Ele não conversou comigo e esperou eu ir para São Paulo para fazer isto. Ele não queria que o deputado Roberto Engler fosse candidato a prefeito. Eu me considerava completamente preparado, absolutamente preparado e com a experiência necessária para fazer o melhor governo que Franca já teve. Me considero desta maneira. Eu estava apenas medindo se eu era mais útil como deputado ou como prefeito e ele não me deu tempo para tomar esta decisão. A responsabilidade é integralmente dele. Se não me foi dada a oportunidade de escolher, eu continuo onde tenho a certeza de que estou sendo útil. Estou bem como deputado e as conquistas têm acontecido.