08 de julho de 2026

Mercado às avessas


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O comércio de bens anda meio destrambelhado ultimamente. Aquela velha transação, em que prevalecia a lei da oferta e da procura, tanto nas negociações de imóveis, quanto de automóveis, deixou de estar em vigor para o comprador. De qualquer jeito, apesar da grande oferta existente, quem compra acaba pagando os olhos da cara (sic) pela aquisição.

O inchaço dos preços praticados no mercado está atrelado à facilidade com que o comprador consegue empréstimos ou financiamentos. A necessidade e a vontade de comprar fazem com que o valor final de um imóvel atinja a estratosfera. Como depois tudo vai ser pago em suaves prestações, o adquirente nem atenta para a alta correção monetária.

Acompanhando a aceleração das negociações imobiliárias inflacionadas pelos financiamentos, o mercado aproveitador tenta praticar os mesmos preços das novas construções. O resultado desse oligopólio pode ser visto nos mais diversos bairros. Em quase todas as ruas, pode-se ver placas indicativas de venda afixadas nas casas. Mesmo com a enorme oferta de imóveis, os preços continuam crescendo sem parar. De nada adianta o oferta excessiva.

O engraçado deste fenômeno é a constatação de que o trinômio formado pela oferta, procura e preço não está sendo levado em conta pelo mercado. Se o construtor ou proprietário de um imóvel o coloca à venda e não consegue vendê-lo pelo valor pedido, em vez de abaixar o preço, faz o contrário, começa a reajustá-lo com o correr do tempo.

Na outra ponta da situação econômica fica também o mercado às avessas do setor de aluguel de imóveis. Essa área sempre foi supervalorizada. No entanto, como parte dos locatários migrou para a compra da casa própria financiada, provocando uma crescente oferta de imóveis para locação, era de se esperar uma queda nos valores. Nada disso aconteceu. Aliás, quanto mais imóvel entra em oferta, maior se torna o preço pela mensalidade.

Pelo lado dos automóveis e afins, as negociações seguem o mesmo raciocínio. As montadoras entopem o mercado de veículos novos. Ainda por cima, os preços à vista são tentadores. A maioria dos compradores parte para financiamentos, no entanto, o que altera para bem mais o preço final.

Depois, o mercado de carros usados absorve toda essa inflação criada pelas prestações a longo prazo.

O preço de um veículo seminovo ou até mesmo muito usado, por vezes, chega a superar o valor real de um zero. Ninguém entende essa valorização contraditória. A massificação do produto novo, com descontos especiais, não provoca concorrência igualitária na negociação de usados.

Vale também destacar que, em muitos casos, dependendo da marca ou do modelo, o preço de um veículo usado costuma ser bem superior àquele praticado pela própria montadora.

Antônio Araújo
Articulista e professor - tonin.palavras@uol.com.br