05 de abril de 2026

Transformação sem fragmentação


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Todos os anos, quando chega junho e a redação do Comércio da Franca começa o trabalho de pensar, criar, organizar e construir a edição de aniversário do jornal, um dos mais ilustres colaboradores do caderno Nossas Letras, publicação de cunho literário que circula aos sábados como parte integrante do Comércio, faz-se ouvir por sua escrita lúcida e respeitada. Convidado a falar sobre o significado do dia 30 de junho para todos os que mantêm laços com o jornal, os que o produzem e os que o leem, o professor, escritor e agitador cultural Luiz Cruz de Oliveira costuma retomar sua contagem regressiva para o centenário a ser celebrado em 2015. Faz alguns anos que este costume começou e, no seu início, parecia bem distante a data dos cem anos. Mas, de repente, neste junho de 2012, toda a equipe se dá conta de que está quase chegando o dia em que acenderá 100 velinhas neste bolo histórico-afetivo que avivará muitas lembranças. A partir de agora, faltam apenas três anos para a data redonda, que vai colocar o Comércio da Franca no rol de poucas dezenas de jornais brasileiros a alcançar tal idade.

Enquanto se prepara para isso, com um olho no futuro que chega a jato, apontando novas plataformas para a prática jornalística, e outro olho no passado, fazendo o necessário resgate que os natalícios ensejam, o Comércio prossegue seu movimento de evolução constante, transformando-se sem perder a identidade. Quem acompanhar nas páginas que se seguem a linha do tempo de sua história, poderá ver com clareza que as cinco direções que marcaram sua trajetória entregaram ao jornalista Correa Neves Junior, atual diretor, um produto que veio se habilitando cada vez mais como “a voz que responde e esclarece”. Esta voz, ainda no dizer de Luiz Cruz de Oliveira, referindo-se ao importante papel de uma imprensa que elegeu a cidade de Franca como objeto de cuidados, inquietações, curiosidades, anseios e ideais, aposta no crescimento , reconhece conquistas, lastima equívocos, faz crítica pertinente, retrata a realidade, investe em propostas sociais, incomoda o poder e celebra momentos significativos vividos pela população. “No arquivo valioso do Comércio da Franca, vêm sendo armazenados informes de cada nervo, de cada músculo, de cada ato desse ser extraordinário chamado Franca. O Comércio da Franca executa este trabalho há exatos 97 anos. Ininterruptos.” Estas frases finalizam o texto de Cruz, que os leitores encontram, junto aos de outros colaboradores, nesta edição.

Criando imagens ligadas à vida, o escritor traduziu de forma bela e concisa, traços de seu estilo, uma característica importante do Comércio da Franca, que começou a ser traçada desde 1915, quando foi fundado por um livreiro chamado José de Mello, até chegar à jovem administração de Correa Neves Junior, no comando do jornal desde 2005. Esta característica, sublinhada pelo adjetivo ininterrupto, reside na capacidade e força de sobreviver com independência, superando dificuldades e fragilidades, mesmo nos cinco momentos em que seriam naturais alguns percalços, pois mudavam as cabeças pensantes e a maneira de conduzir. Não houve contudo fraturas ou interrupção de circulação em nenhum instante da história do Comércio da Franca. Nem no breve período de Oscar Otaviano/Vicente de Paula (1920-1922), jornalistas que sucederam ao pioneiro José de Mello (1915-1920); nem nas décadas de construção de Ricardo Pucci (1922-1955); nem nos tempos de mudanças de Alfredo Costa (1955-1973); nem na fase de modernização de Correa Neves (1973-2005); nem na contemporaneidade quando o jornal, sob direção vanguardista de Correa Neves Junior, passa a integrar enorme estrutura de informação em simbiose com rádio, portal e núcleo de revistas sob a sigla GCN-Comunicação. Essa trajetória de evolução sem fragmentação confere ao jornal que chega aos 97 anos uma identidade que o vincula em inteireza e integridade à cidade de Franca e ao povo francano. Seu acervo material, que vem recolhendo a história que a comunidade está escrevendo há mais de nove décadas, é rico. Mas seu acervo imaterial também é precioso, pois incorpora, entre muitos valores, a energia de todos os que deram parte de suas vidas para que se mantivesse intocável o ideal de publicar e fazer circular, e em clave polifônica, fatos, ideias, críticas, análises e sonhos, ou seja, todo o conjunto de informações, opiniões e fotos que respondem às demandas dos leitores. Transições serenas e reflexivas, nem sempre fáceis mas com certeza amadurecidas por jornalistas imbuídos da consciência de suas responsabilidades, constituíram pontes importantes no desenho de um jornal que se perfila atualmente ao lado dos melhores no interior do Estado, com premiações recentes a robustecer capítulos atuais de sua história. Nas páginas que se seguem, textos e imagens desvelam o espírito que move toda a equipe de jornalistas que trabalham todos os dias para produzir este que se tornou em Franca “o jornal que todo mundo lê”.