05 de abril de 2026

Memória


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Eu me lembro de muita coisa.
Quase ninguém dizia Rua Voluntários da Franca. Quase todo mundo na cidade falava Rua da Estação. Por ela eu ia ao trabalho, de madrugada, voltava às 13 horas, porque tinha de ir a casa, tomar banho, pegar o caderno, correr para o Grupo Escolar Barão da Franca, onde a professora Nair Rocha ensinava, exigia, distribuía beijos ou, às vezes, varadas de marmelo nas pernas desprotegidas.
Eu me lembro de muita coisa.

Era o ano de 1951. Na Praça da Estação ficava um bar, ao lado do som do Olival. Depois, havia a pracinha da Igreja de São Sebastião, depois a Farmácia Brasil. Um pouco para baixo, havia a fábrica dos Licursi, uma pensão, a loja do Cerqueira Pucci e a Farmácia São Sebastião do Leonildo Foroni. Lá em baixo existia outra farmácia, a Santa Terezinha, do Anésio Foroni e, na beira do córrego, o que havia era a fábrica de bebidas. Do outro lado dos Bagres, era a bica d’água que a cidade inteira sabia: a Água da Careta. Subindo a rua, de um lado ficava a fábrica de sapatos Terra e, em frente, a empresa de ônibus São José e os Móveis Meneghetti.
Lá em cima, na esquina da Praça 9 de julho, ficava a Casa Única e, depois, até na esquina da Praça Nossa Senhora da Conceição, enfileiravam-se muitas lojas importantes - Casa Buri, Casas Pernambucanas, Casa Higino Caleiro, Banco Hipotecário e Banco do Brasil. Na outra esquina da praça ficava a Farmácia Normal e o sobrado do doutor Ricardo Caleiro Pinho. Depois vinha a Praça da Santa Casa, a Santa Casa e a sua capela. A rua terminava no buracão que existia onde hoje ela cruza com a Rua Estevão Leão Bourroul.
Eu me lembro de muitas coisas.

Naquele tempo, só a Rua da Estação e as ruas do centro da cidade tinham calçamento: o leito delas era forrado com paralelepípedos. O resto era só estradinha de terra.
Eu me lembro de muita coisa.

Mas eu me lembro de muito pouca coisa.
Eu me lembro de meu pai explicando que os imóveis da Rua da Estação eram os mais valorizados da cidade porque os ônibus urbanos subiam e desciam por ela para levar o povo até à Estação da Mogiana, até o centro, até à Praça João Mendes. Como poucas pessoas tinham carro, era privilégio grande contar com ônibus na sua rua. Privilégio maior era só mesmo ter um ponto de ônibus defronte sua residência.
Eu me lembro de muita coisa.

Mas já esqueci quase tudo.
As dezenas e dezenas de estabelecimentos comerciais, as centenas de residências da Rua da Estação sumiram da minha memória.
Eu me lembro de muita coisa. Mas esqueci quase tudo.

A vida que pulsava na Rua da Estação desapareceu. Sumiu o ônibus que perdeu os freios, que desembestou morro abaixo. Os passageiros viraram névoa na frieza de tantos invernos. O tempo levou no frio a legenda escrita acima das janelinhas do coletivo: Franca terra que produz o melhor café do mundo. Não mais consigo enxergar, em meio à neblina, dois homens empurrando um Fordinho 29 morro acima.

Se a vida da Rua da Estação empalideceu em meio às sombras, imaginem onde foram parar os personagens da Vila Catoco, da Boa Vista, da Vila Nova, da Cidade Nova, do Cubatão, onde andam a Conceição dos Cabritos, a Maria Capotinha, o Tiãozinho-dá-um-pulinho, a Luzia,o Geraldo Pelotão...?
De quando em quando, a minha memória abre um olho.


Então, escuto roncos de avião. O Pitinim era ídolo dos alunos do meu grupo escolar. As crianças não o conheciam, porém todos sabiam que ele era o piloto mais corajoso da região, voava até com o avião de cabeça para baixo. Ouço, durante o recreio, lá no Torquato Caleiro, a tragédia, a história de amor do piloto que fazia acrobacias para a amada, lá na rodoviária - Praça do Correio - o avião bateu no poste, o jovem apaixonado morreu diante dos olhos da pretendida.
Eu me lembro de muita coisa. Mas o cérebro humano é limitado. Eu já me esqueço de quase tudo.

Sou, no entanto, homem de muita sorte. Minha cidade possui privilegiado repositório de sua vida: a sua imprensa.
Quando minha curiosidade quis saber qual a primeira poesia publicada em Franca, ela foi satisfeita. Quando desejou saber quando a Maria Fumaça apitou pela primeira vez, no topo de uma de nossas colinas, também foi prontamente atendida.

A essas e a quase todas as indagações que se fizerem sobre a vida da cidade de Franca e de seus personagens, sobre suas riquezas e sobre seus encantos existe sempre uma voz que responde e que esclarece.
Quem responde e esclarece é a voz do tempo, arquivado e conservado nos baús antigos e modernos de nossa imprensa.

No arquivo valioso do Comércio da Franca vêm sendo armazenados informes de cada nervo, de cada músculo, de cada ato desse ser extraordinário chamado Franca.
O Comércio da Franca executa esse trabalho há exatos 97 anos. Ininterruptos.

Isso me entusiasma, sobretudo quando penso que são maiúsculas as dificuldades que se opõem à imprensa interiorana no Brasil.
Mais que espantar, porém, envaidece-me o fato de estar também jogando no baú da crônica coletiva alguns pálidos capítulos.