05 de abril de 2026

Jornal ‘adoça’ café dos Querinos


| Tempo de leitura: 4 min
O corretor de imóveis Eduardo Querino divide o jornal com os pais, os aposentados Antonio Querino de Souza e Maria Gonçalves Querino, durante o café da manhã

O corretor de imóveis Eduardo Querino não é assinante do Comércio da Franca, pelo menos não diretamente. Porém, segundo ele, dificilmente há na cidade alguém que nesses últimos três anos tenha lido esse jornal com mais assiduidade e intensidade do que ele.


O caso é simples. Seus pais, o aposentado Antonio Querino de Souza, funcionário da empresa de calçados Terra durante mais de 40 anos, e sua mãe, a professora Maria Gonçalves Querino, que por opção deixou de lado a docência para assumir a responsabilidade da casa, da família e dos filhos, são assinantes do Comércio há muito tempo. Eduardo, 53 anos, se lembra de ler e folhear as páginas do jornal desde os 7 anos. Portanto, a família é assinante há uns 40 anos aproximadamente, com apenas um ano de interrupção.

No entanto, o que Antonio e Maria nunca imaginaram durante todos esses anos, tempos em que a correria do cotidiano e as obrigações de família mal lhes deixavam tempo para a leitura diária do jornal, é que, no futuro, essa assinatura acabaria se transformando em um motivo para reunir parte da família em torno do café da manhã, algo que vem acontecendo ininterruptamente nos últimos três anos.

Desde que voltou para Franca, em 2009, quando deixou de lado as cansativas viagens de representante comercial, Eduardo toma café da manhã com seus pais todos os dias, impreterivelmente. “Como fiquei longe muito tempo, acho que essa foi uma forma que encontrei de poder estar mais perto de meus pais novamente. E também de ajudá-los no que eles precisarem”, conta Eduardo.

A rotina não chega a ser espartana. Ao contrário, tem lá sua flexibilidade, seguindo principalmente o horário de entrega do jornal, que chega à casa da família entre 7h e 7h30, invariavelmente.

“O jornal é de uma pontualidade incrível. Tem uma variação de 20 minutos a meia hora, mas dificilmente passa disso”, diz Eduardo. Mas, se por alguma eventualidade o jornal atrasar mais de cinco minutos, Maria liga imediatamente para a sede do Comércio para saber o que aconteceu e quando o exemplar será entregue. “Ela não deixa passar muito tempo. Afinal, se o jornal não é a estrela principal, é pelo menos fundamental para o café”, diz Eduardo.

A ROTINA
O corretor acorda entre 6h e 6h30. Sai de casa e passa na padaria para comprar o pão e quitutes para o café. Chega à casa dos pais mais ou menos junto com o jornal e logo se senta à mesa para folheá-lo. Algumas vezes precisa esperar um pouco pelos pais, que se deixam ficar um pouco mais naquele sono mais justo de quem já batalhou muito na vida. 

Na maioria das vezes, porém, às 7h30 já estão tomando café, lendo o jornal e conversando. E essas coisas acontecem sem muita ordem ou planejamento. O jornal é dividido em cadernos. Eduardo começa pelo local. Interessado em política e frequentador assíduo das sessões da Câmara, ele busca estar sempre a par do que está acontecendo na cidade. “Eu gosto muito de política e me identifico muito com os textos e com a coluna do Edson Arantes.”

Maria já prefere ficar com o caderno de Artes e Cultura e Antonio começa sua leitura pelos esportes. Mas essa é só a primeira rodada. Assim que acabam de ler, trocam os cadernos e conversam sobre o que acabaram de ler. 

No meio desse contexto de leitura, café e jornal eles ainda encontram tempo para planejar o dia a dia. “Vejo o que eles precisam fazer e no que eu posso ajudar”, diz Eduardo. “Ele é o meu taxi. E do Antonio também”, brinca Maria.

E o café da manhã em família segue nessa toada até o domingo. Nesse dia, às vezes, o café recebe algum novo convidado, o que aumenta um pouco a disputa pelos cadernos do jornal. Uma disputa que, se é mais tranquila no café, acaba se acirrando bastante no decorrer do dia, pois a casa de Antonio e Maria é o centro gastronômico da família. É lá que todos os filhos, genros e netos e até mesmo alguns agregados gostam de se reunir no domingo, o que gera aquela gostosa bagunça.

“Aí a disputa pelo jornal cresce. Todo mundo quer pegar uma parte e ir para o seu canto”, diz Antonio. Nisso algumas partes “somem”. “Como o jornal fica dividido e jogado por todo o lado, quando queremos olhar alguma coisa no domingo à noite ou na segunda pela manhã, às vezes não conseguimos”, diz Maria.

Um dos genros, por exemplo, é especialista em levar o caderno Nossas Letras para casa. O esporte é outro caderno que às vezes desaparece...

“O incrível é que eu nunca fui muito de tomar café da manhã. Para se ter uma idéia, na minha casa nem tem coador. A idéia é mesmo estar um pouco mais junto de meus pais, mas, com certeza, o Comércio é peça importante nesses encontros”, finaliza Eduardo.