05 de abril de 2026

‘Cúmplices’ do jornal há mais de 20 anos


| Tempo de leitura: 7 min
Antonio Roosevelt de Moraes e a mulher, Maria Aparecida Ribeiro de Moraes, cumprem até ritual na hora da leitura integral do jornal: ela prefere os cadernos Artes e Nossas Letras, ele não sai de casa sem o caderno de Esportes

A maioria dos leitores tem uma relação de cumplicidade com o jornal que assina, mesmo com toda a carga de informações que recebe de outros meios como rádio, TV e internet. É o caso da família de Antonio Roosevelt de Moraes, assinante do Comércio da Franca há mais de 20 anos. Eles nunca deixaram de ler o jornal em sua totalidade. Antonio, sua mulher, Maria Aparecida Ribeiro de Moraes, e até seus filhos, Antonio Júnior, Fabíola e Sara - que, apesar de hoje estarem casados e vivendo em outras cidades -, nunca deixaram de ler o Comércio e de se informar sobre os acontecimentos mais importantes de Franca e região.
Ao contrário, pode-se dizer que o interesse dos Moraes até aumentou com o passar dos anos, em função das mudanças que o jornal foi promovendo não apenas em seu conteúdo, mas também em seu formato.


“Eu não saio de casa para o trabalho sem levar comigo o caderno de Esportes”, diz Antonio, um corintiano apaixonado que não quer perder uma única notícia a respeito de seu time do coração.
Mas não é só Antonio que tem prazer na leitura diária do Comércio. Sua mulher Cida, como prefere ser chamada, também faz questão de lê-lo todos os dias.
“Em casa todo mundo gosta muito do caderno Nossas Letras, que sai aos sábados. Minha filha, Fabíola, que é psicóloga, era uma leitora assídua, assim como o marido dela, também psicólogo”, acrescenta Cida.


Mesmo quando a família viaja, Antonio não deixa de levar o Comércio para poder saboreá-lo mais tranquilamente depois de já instalado, independentemente do lugar para onde vá, como aconteceu certa vez em que foi flagrado por uma francana com um exemplar no jornal na cidade de Jataí, em Goiás, na casa de sua filha.


CASAMENTO
Mas a história dessa família começa bem antes desses 21 anos como assinantes do Comércio. Antonio, natural de Muzambinho, Minas Gerais, foi ainda menino para a vizinha Guaxupé, cidade natal de Cida. Lá se conheceram e acabaram se aproximando por um equívoco de Cida, telefonista na época, que acabou errando em um troco para Antonio. Dali, para o cinema, foi um pequeno pulo. E para o casamento, um pulo maior, mas não tão demorado.

Depois de casados, foram para Furnas, onde Antonio foi contratado como técnico em eletricidade. Ficaram em Furnas durante três anos e depois se mudaram para Estreito, onde moraram 11 anos. De lá foram para Peixoto, retornaram para Estreito e finalmente se mudaram para Passos, onde Antonio se aposentou, depois de 27 anos e meio trabalhando para Furnas.
Nesse meio tempo, Antonio resolveu voltar a estudar, já que sua formação técnica limitava-se ao ensino médio e prejudicava seu crescimento e sua ascensão na empresa. Dessa forma, matriculou-se no curso de técnico em transmissão e distribuição de energia elétrica pela Fundação Pestalozzi, que na época oferecia vários cursos superiores em tecnologia, cursos esses que foram posteriormente passados para a Unifran.

Também nesse meio tempo, eles conheceram bem a cidade de Franca, pois ela funcionava como centro comercial e de serviços para as comunidades que viviam em torno dessas usinas.
Em função disso, depois da aposentadoria, Antonio e Cida decidiram se mudar para Franca.
“Conversamos com amigos e com meus irmãos que moravam em Ribeirão Preto, mas acabamos nos decidindo por Franca, que em nossa opinião é a melhor cidade da região, em termos de clima e tranquilidade”, diz Antonio.

SEM COMPARAÇÃO
Quando chegou a Franca, em agosto de 1991, Antonio imediatamente solicitou uma assinatura do Comércio, para ele o melhor jornal da região, disparadamente. “Não tinha comparação. O Comércio sempre foi o melhor jornal. Na época ele já parecia grande, hoje é com certeza um grande jornal”, afirma Antonio.

Como leitores inveterados, os Moraes nunca ficaram sem jornais ou revistas em suas vidas. Cida, inclusive, se lembra do quanto gostava de ler a revista semanal O Cruzeiro, que encontrava sempre na casa de seu tio, ainda na pequena Guaxupé.

“Eu lia todas as revistas, do começo ao fim. Às vezes, lia até de madrugada”, lembra Cida.
Antonio também afirma que toda a cultura normatizada que adquiriu, que ele humildemente afirma não ser muita, veio da leitura, porque seus pais eram pessoas simples e não puderam dar-lhe uma educação mais apurada.

“Até os 18 anos eu vivi na roça e não tive muita oportunidade de estudo”, recorda-se Antonio.
Talvez seja por isso que eles ainda hoje dão tanto valor à leitura, não apenas das partes geralmente mais factuais e mais lidas de um jornal, mas também daquelas outras mais “frias” e voltadas para as questões culturais.

Cida, por exemplo, apesar de passar primeiramente pelas manchetes locais e depois pelo obituário, não deixa de “passear” por todo o caderno de Artes, se informando sobre a programação cultural da cidade e sobre as novelas que acompanha regularmente.
Antonio tem até um ritual para ler o Comércio: “Primeiro, eu leio a manchete e dou uma passada de olhos na primeira página. Depois vou para o obituário e daí para o esporte. O resto eu vou lendo durante o dia, conforme o tempo me permite”, diz.

AGREGADOS
Um agregado da família que “viaja” pelas páginas do Comércio diariamente é o irmão de Cida, que mora em uma casa ao lado. “Como ele tem a chave, lá pelas 10h da manhã ele entra e vem aqui para o fundo e fica lendo o jornal. Só não lê o esporte que eu levei comigo”, brinca Antonio.
Há alguns anos, havia outra leitora inusitada do Comércio dentro da casa dos Moraes. A ex-empregada, que ficou mais de 10 anos com eles, não deixava de dar uma olhada no obituário todos os dias.

“Se morresse algum aposentado ou alguém de Furnas, ela já perguntava para o Antonio se ele o conhecia. Queria saber a idade e tudo o mais, pois ela tinha um medo danado de o Antonio morrer e ela ficar sem emprego”, se diverte Cida.

Umas características que Antonio diz mais apreciar no Comércio é seu compromisso com a informação, independentemente do horário em que o fato aconteça. Enquanto os principais jornais do país que chegam à cidade não noticiam nada que acontece depois da 21h, o Comércio sempre publica as coisas mais importantes, mesmo que elas aconteçam tarde da noite ou até mesmo no começo da madrugada.

“O Comércio sempre noticia os resultados do esporte e é muito rápido em divulgar os vencedores quando acontecem eleições, algo que outros jornais não conseguem fazer”, argumenta Antonio.

Outro ponto positivo apontado pelo aposentado é que o jornal chega a sua casa antes das 6h40, impreterivelmente. “O jornal é de uma pontualidade incrível”, confirma Cida.

ESPECIAL
Para Antonio, o trabalho do Comércio que mais o marcou até hoje foi um caderno sobre flores publicado em uma edição especial. Ele não sabe precisar direito, mas acredita que tenha saído há uns dois anos (ele se refere ao caderno de aniversário da cidade, publicado em 2010, que trouxe um raio X das árvores locais).

“Era uma produção belíssima. Como adoro flores, adorei aquela publicação”, lembra Antonio.
Ele, assim como Cida, gosta muito dos textos do José Chiachiri Filho e de Sonia Machiavelli, que escrevem no caderno Nossas Letras.

“Lembro-me de um texto que a Sonia escreveu sobre uma árvore de Rifaina. Um texto lindo. Era um jaracatiá, se eu não me engano, uma árvore da família dos mamoeiros e que me lembrou dos tempos em que minha avó fazia doce de seus frutos e de seu caule”, recorda Antonio.
Ele não esquece também um texto de Hélio França, com o qual gostaria de se encontrar, pois acredita ter com ele várias coisas em comum. “Ele escreveu um texto no Nossas Letras contando que reconhece os passarinhos pelo voo e eu também sei fazer isso, pois adoro passarinhos.”,

Particularmente, Cida gosta muito das dicas de português dadas pelo professor Everton de Paula, colaborador antigo do Comércio da Franca e que já foi, inclusive, professor de Antonio em cursos de português e oratória em Furnas. Mas, como bons e fiéis leitores do jornal, eles também têm suas sugestões, sobretudo Antonio, que trata o jornal com bastante intimidade. 


“Não sei se seria atrevimento, mas como sugestão diria para vocês colocarem a data de nascimento e de morte no obituário, bem como o motivo do falecimento”, diz Antonio.
Mas a principal sugestão, que ele sabe ser de difícil execução, mas que muito o agradaria, era poder ler o Comércio também na segunda-feira. 

“Sei que é difícil, pois seria necessária uma equipe para trabalhar no domingo e isso talvez seja muito oneroso. Mas seria muito bom ter um jornal para ler também na segunda.”