Bem, então ela não o havia abandonado de todo, esquecido de uma vez. Mas havia algo que... Bem, não sei, eu apenas questionava sobre que outra circunstância haveria além da pobreza...
– Com o dinheiro que o senhor me deu e mais algum que juntei fazendo serviços para outras pessoas, pensei em comprar um presentinho para minha mãe. Vou comprar uma bolsa... É o que dá, mas eu tenho certeza de que ela vai gostar muito...
Não pude deixar de assumir um sentimento de desprezo por essa mãe: existia um alimento muito mais importante do que o pão para o corpo, do que um trenzinho de Natal, do que uma roupinha para se agasalhar no frio... E a falta desse alimento podia levar a alma a morrer de fome. Ali estava aquela criança pensando em comprar-lhe uma bolsa, por gratidão, enquanto ela vivia em São Paulo, trazendo um ou outro presentinho em época de visitas ou enviando recados de falso amor maternal. Por que ela ainda não viera neste mês de julho?
– Ela, gosta de bolsas brancas, continuou Toni, - o senhor acha que eu posso comprar uma bolsa com quinze cruzeiros?
Não podia, mas disse que sim para não acabar de desmoronar de vez aquele vínculo filial a quem não merecia.
Não voltamos a falar de sua mãe. Retornei furiosamente à minha tese e a concluí em poucos dias.
Tôni agora vinha menos vezes ao chalé, quase pressentindo a minha iminente partida. Talvez não quisesse aprofundar mais nossa amizade para não sofrer na ausência.
Já era quase final de julho. Minha tese estava terminada. Comecei a me preparar para partir. Numa tarde, disse a Tôni:
– Você tem sido um bom amigo. Vou sentir sua falta. Mas Baldo ficará em sua companhia e você ainda será um garoto muito feliz. Eu parto amanhã.
Ele não respondeu. Apenas pôs as mãos para trás, deu meia volta e partiu por sua trilha em direção ao orfanato.
Esperei-o na manhã seguinte. Ele não apareceu. À tardinha, passei pelo orfanato para deixar a chave do chalé com irmã Maria.
– A senhora poderia chamar Tôni? Eu gostaria de me despedir dele.
– Não sei onde ele está respondeu a religiosa. Acho que hoje ele não está passando muito bem. Não almoçou. Um dos meninos viu-o subindo a colina em direção às araucárias
Foi quase um alívio para mim. Seria mais fácil não me despedir dele.
– Eu gostaria muito de conversar com a senhora a respeito da mãe dele, saber por que ele está no orfanato, mas já está perto de escurecer e quero principiar a viagem com a luz do dia. Aqui está algum dinheiro. Queria que lhe comprasse um presente de aniversário; menos um trenzinho de armar, que sua mãe já lhe deu...
– Não há trenzinho nenhum nem muita oportunidade para se divertir com brinquedos aqui, disse irmã Maria, com uma expressão de estranheza nos olhos francos.
Sua resposta me incomodou. Continuei:
– O que quero dizer é que não desejo lhe mandar as mesmas coisas que a mãe dele lhe manda.
Irmã Maria olhou-me com espanto:
– Não compreendo, disse. Ele não tem mãe. E nunca teve brinquedos.